Taleban prosseguirá destruição dos Budas

Desconsiderando a indignação mundialprovocada por seu edito de há uma semana ordenando a demoliçãode relíquias pré-islâmicas, o radical líder do Talebanqualificou hoje a destruição das duas estátuas de Buda empé - uma delas, a maior do mundo - como um tributo tanto ao Islãquanto à "brava nação afegane".O mulá Mohammed Omar também acusou nações não-islâmicas de umcomplô na tentativa de pretenderem adaptar a identidade islâmicado Afeganistão a seu próprio feitio."O mundo não-islâmico está unido contra o Taleban, mas nãoseremos contidos. Manteremos nosso caminho islâmico", afirmouOmar num comunicado divulgado pela agência de notícias doTaleban, Bakhtar. "Agradou a Deus que a tenhamos destruído".Omar referiu-se à crítica internacional como "barulho". Elenão tocou na desaprovação expressada por nações muçulmanas,incluindo o mais próximo aliado do Taleban, o Paquistão, quetambém pediu pela preservação das estátuas.No centro da celeuma estão as duas gigantecas estátuas de Buda medindo 52,5 e 36 metros de altura, esculpidas em montanhas nosséculos terceiro e quinto. A mais alta é considerada a maiorestátua de um Buda em pé do mundo.Mas relíquias menores - algumas apenas fragmentos, outrasestátuas completas - são igualmente preciosas. No Museu de Cabularruinado pela guerra civil, existem milhares de fragmentos daarte budista, catalogados e guardados no porão. Pelo edito domulá, todos seriam destruídos.Tem havido notícias conflitantes sobre a extensão dos danos àsestátuas de Buda. Uma testemunha relatou que soldados do Talebandispararam bazucas contra as duas relíquias.O ministro da Informação e da Cultura do Taleban, QatradullahJamal, disse que as cabeças e as pernas dos Budas já haviam sidodestruídas. O resto deveria ser destruído hoje, acrescentou ele,sem dar certeza sobre se os soldados conseguiriam completar oserviço em tempo. O Taleban tem se recusado a qualquer estranho permissão parase aproximar de Bamiyan, no centro do Afeganistão, onde estãolocalizadas as duas estátuas. Os líderes do Taleban não estavamdisponíveis hoje para entrevistas, devido à festa muçulmana doEid al-Adhar, ou banquete do sacrifício. Um enviado especial da Unesco não ficou otimista depois deencontrar-se com autoridades do Taleban em Kandahar, sul do país no quartel-general da milícia governista. "Não posso dizer que minha missão tenha sido bem sucedida...Não consegui que eles suspendessem a ordem", afirmou PierreLafrance no vizinho Paquistão. Mas Lafrance disse que não havia perdido a esperança. Elepretendia retornar ao Afeganistão após a festa islâmica. Mas pode ser tarde demais. Na maior mesquita de Cabul, o vice-líder do conselhogovernista do Afeganistão, mulá Mohammed Hassan Akhund, dissehoje a fiéis que a ordem de destruir todas as estátuas no paísestava sendo cumprida e não seria alterada. Não serãoconsideradas ofertas de outros países para comprar as relíquiasde valor inestimável, acrescentou ele. "Sem nenhum temor, estamos implementando a ordem. Estamosdestruindo as estátuas", afirmou ele. "O Islã diz que é tãoruim vender os Budas quanto mantê-los. Eles têm de serdestruídos". O Vaticano uniu-se hoje ao coro de protestos contra a decisãoda milícia afegane, um resultado "maluco" do "fanatismoextremista", segundo editorial do L´Osservatore Romano. "Quando o extremismo mata a arte: não se trata de um sloganbarato para ser exibido numa manifestação pública, mas de umatrágica verdade que está se passando com a maluca e progressivadestruição de dois esplêndidos Budas esculpidos em pedra",afirma o editorial. "Menosprezo e ódio pelo fator estético é típico de todofanatismo que confunde símbolos com a realidade", escreveu ojornal do Vaticano, acrescentando que "certamente, quando ofanatismo extremista prevalece, não apenas o trabalho do homem édestruído, mas o próprio homem".

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