Taleban recruta afegãos em campos paquistaneses

Refugiados que estão no Paquistão desde invasão soviética são presas fáceis de radicais e atraem a reação dos EUA

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2011 | 00h00

ENVIADA ESPECIAL

PESHAWAR, PAQUISTÃO

Os campos de Jalozai, a 35 quilômetros de Peshawar, no Paquistão, abrigaram milhões de refugiados da invasão soviética no Afeganistão, nos anos 80. No local, foram recrutados meninos pobres que viviam nas madrassas da fronteira, onde recebiam educação religiosa e treinamento militar para a jihad contra os comunistas. Anos depois, foram esses estudantes que dominaram o país vizinho e terminaram depostos pela coalizão liderada pelos EUA após os atentados do 11 de Setembro.

Trinta anos depois, a história se repete. Novos refugiados chegam todos os dias, agora escapando dos bombardeios na fronteira, como o que foi realizado ontem pelos EUA. Cinco pessoas morreram e sete ficaram feridas na zona tribal do Waziristão do Sul. Foi o segundo ataque desde a operação que matou o líder da Al-Qaeda Osama bin Laden, em Abbottabad, no dia 2.

Ataque. Um desses ataques aéreos destruiu a casa e as terras do agricultor Said, na vila de Bajoor. Ele deixou tudo para trás e fugiu a pé com a mulher e os 11 filhos, que hoje dividem um conjunto de tendas no campo de Jalozai.

As crianças deixaram a escola. A comida é uma ração distribuída por agências humanitárias. Não há luz e a água é tirada de poços deixados por refugiados afegãos dos tempos da luta contra os soviéticos. Os ataques são o ponto mais conflituoso da aliança do Paquistão com os EUA na guerra contra o terror. Foram iniciados em 2008, ainda no governo de George W. Bush, mas intensificados em 2009, na presidência de Barack Obama.

Na segunda-feira, o premiê paquistanês, Yousuf Raza Gillani, disse que esse tipo de ataque fere a soberania do país. Washington alega que as operações têm aval dos militares do Paquistão.

Cerca de 300 mil desabrigados pelos conflitos na fronteira com o Afeganistão vivem hoje nos campos de Jalozai. A maioria quer voltar, mas não tem para onde ir, já que o lugar onde moravam foi destruído. "Ficamos no fogo cruzado. Lá, morremos de tiro. Aqui, morremos de fome", diz Said.

Madrassas. Outro pai de família, Mohamed Ullah, de 45 anos, conta que o Taleban tentou impor seu regime na região. "Eles tentaram trazer mudanças sociais para ganhar a população das vilas. Você sabe, nas madrassas as crianças têm onde morar e o que comer. Nós não temos ideologia, mas, sem alternativa, muitos mandaram seus filhos para essas escolas", diz.

Foi em Bajoor que o primeiro ataque do tipo foi conduzido pelas forças americanas, em janeiro de 2006, supostamente contra o número 2 da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri. A operação deixou 18 mortos, mas ele escapou.

Após 2008, com o aumento dos bombardeios, os taleban fugiram para as montanhas. "Vi esses meninos (do Taleban) serem treinados pelo ISI (serviço secreto do Paquistão)", lembra o motorista Awal Khan, de 54 anos, do vilarejo de Daradam Khel. "Nós os criamos e, agora, eles querem nos destruir." Pressionado pelos militares, um vizinho de Khan teria dado informações sobre insurgentes na região. Dias depois, seu corpo apareceu decapitado no vilarejo.

"As forças do Paquistão e dos EUA, que treinaram essa gente, agora nos acusam de contribuir com eles. Mas não é verdade. Os taleban são leões das montanhas. Eles somem feito baratas, em segundos, escondem-se nas cavernas. Então, vêm os americanos e nos bombardeiam. Os militares paquistaneses vasculham nossas casas, torturam nossos filhos. Nós, paquistaneses, estamos no meio do fogo cruzado."

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