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Taleban reprime com violência o primeiro protesto público no Afeganistão; veja vídeo

A manifestação, que foi causada após a tentativa de troca da bandeira afegã, deu sinais iniciais de que a população não aceitará com facilidade o domínio do grupo radical

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2021 | 08h28
Atualizado 18 de agosto de 2021 | 16h24

Apesar das tentativas de moderação no discurso e promessas de modernização em relação ao período em que esteve no poder pela primeira vez (1996-2001), o Taleban reagiu com violência à primeira tentativa de oposição ao grupo desde a tomada de Cabul, no último domingo. Os insurgentes reprimiram um protesto na cidade de Jalalabad, no leste do país, abrindo fogo contra a multidão e agredindo manifestantes e jornalistas.

O ato oposicionista, que ocorreu nesta quarta-feira, 18, foi motivado pela troca da bandeira oficial do país - preta, vermelha e verde -, pela bandeira branca com uma inscrição que representa o Taleban e o Emirado Islâmico, que foi implementado pelo grupo quando esteve no poder. Os manifestantes tentaram impedir a troca e acabaram sendo violentamente agredidos.

Testemunhas ouvidas por agências de notícias internacionais e pela mídia local afirmam que pessoas morreram durante o confronto, mas até o momento não foram divulgadas informações oficiais sobre a real dimensão da repressão do Taleban contra os manifestantes. Em um vídeo gravado no momento da confusão é possível ver uma multidão carregando as bandeiras do país e, posteriormente, o som de tiros. Pelas imagens, não é possível afirmar se alguém se feriu. 

"Os talibãs dispararam contra os manifestantes e atingiram alguns fotojornalistas", conforme veiculou a agência de notícias afegã "Pajhwok", em uma postagem no Twitter.

O Taleban assumiu o controle da cidade, um centro comercial a leste de Cabul, perto da principal fronteira com o Paquistão, quatro dias antes, sem muita resistência, depois que um acordo foi negociado com os líderes locais. Durante a semana, os insurgentes realizaram patrulhas pela cidade em caminhonetes apreendidas da agora extinta força policial.

Apesar dos riscos, centenas de manifestantes marcharam pela principal rua comercial, assobiando, gritando e ostentando grandes bandeiras da República Afegã. Os combatentes taleban atiraram para o alto para dispersar a multidão, mas os manifestantes não se dispersaram, mostra vídeo transmitido pela mídia local mostrou. Quando isso falhou, os combatentes recorreram à violência.

A manifestação e a resposta ameaçaram minar os esforços da liderança do Taleban de se apresentar como administradores responsáveis pelo governo.

A revolta pública veio quando o Taleban se preparava para dar detalhes sobre como será seu governo, nomeando ministros e preenchendo cargos-chave.

“Não queremos mais que o Afeganistão seja um campo de batalha”, disse Zabihullah Mujahid, o porta-voz chefe do Taleban, em uma coletiva de imprensa na terça-feira. “De hoje em diante, a guerra acabou”.

Enquanto muitos eram céticos quanto a essas garantias, em Cabul, os ritmos da vida diária começaram a retornar — mas eles estavam reduzidos em muitos aspectos.

Havia visivelmente menos mulheres nas ruas. Algumas das que se aventuraram a sair não se cobriram com a burca tradicional, a mortalha de corpo inteiro que cobre o rosto necessária na última vez em que o Taleban governou. Em casas e empresas, uma simples batida na porta poderia despertar o medo.

Resta saber se as necessidades pragmáticas de uma nação de 38 milhões continuarão a moderar o fanatismo ideológico que definiu o governo do grupo de 1996 a 2001. Mas o país que o Taleban agora controla mudou muito nas últimas duas décadas.

O progresso das mulheres — de milhões de meninas na escola e mulheres em papéis críticos na sociedade civil — é o exemplo mais visível. Mas anos de investimentos ocidentais no país também ajudaram a reconstruir uma nação que estava em estado de ruína quando o Taleban surgiu.

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Os protestos ofereceram sinais iniciais de que muitos afegãos não simplesmente aceitarão o domínio do Taleban.

O público tem uma certa expectativa de que as necessidades básicas sejam atendidas, e o fracasso do governo afegão em atender a essas necessidades ajudou a alimentar o apoio ao Taleban. Isso permitiu-lhes varrer rapidamente o país — muitas vezes não pela força militar, mas pela negociação com líderes locais frustrados.

Veja o mapa do Afeganistão

Na quarta-feira, em um mercado ribeirinho em Cabul, Jawed estava vendendo maçãs. Nascido no ano em que o Taleban foi expulso do poder, ele não tinha idade suficiente para se lembrar de seu reinado brutal.

Sua preocupação, esta semana, era obter mantimentos e frutas do Paquistão. Isso agora era mais fácil, disse ele.

"As estradas estão limpas, estão quietas", disse Jawed, que se apresenta apenas com um nome. Por enquanto, o Taleban significava mais ordem no trânsito, e os preços no atacado haviam caído. Mas os negócios não estavam melhores.

"O povo está com medo agora, eles não estão comprando", disse ele. "Mas pelo menos é melhor do que ontem. As coisas vão melhorar lentamente. Os mulás chegaram".

A chegada dos mulás taleban — uma referência aos líderes religiosos do grupo — também desencadeou um medo generalizado.

Dezenas de milhares ainda estão tentando escapar. As pessoas fizeram fila cedo nos bancos, preocupadas que não houvesse dinheiro para alimentar suas famílias. E o destacamento de soldados nos postos de controle em Cabul deixou claro que os taleban têm o monopólio do uso da força e que decidiriam como e quando usá-la./ NYT, EFE e REUTERS

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