Taleban se rende em Kandahar

O Taleban concordou em se render para forças tribais em Kandahar, seu último grande bastião, sob um acordo que garanta a segurança de seu líder supremo, mulá Mohammed Omar, disseram, nesta quinta-feira, autoridades dos dois lados.Entretanto, poucas horas depois do anúncio da rendição, surgiram diferenças entre forças anti-Taleban - algumas refletindo rivalidades pessoais e outras em relação ao destino de Omar, a quem os Estados Unidos consideram um criminoso, por ter abrigado terroristas.Num sinal da incerta situação em campo, fuzileiros dos EUA dispararam morteiros em direção ao deserto que rodeia a base deles, a sudoeste de Kandahar, no sul do Afeganistão, depois de terem detectado o que "pareceu ser uma ameaça crível".A base de Rhino foi colocada em alerta, e fuzileiros assumiram posição de defesa. Jornalistas abrigados numa trincheira ouviram mais de 30 detonações, que estremeceram o solo e iluminaram os céus. Repórteres foram orientados a vestir jaqueta à prova de bala e capacete.O recém-apontado primeiro-ministro do Afeganistão, Hamid Karzai, disse que Omar teria de prometer que irá distanciar-se do terrorismo, mas não deixou claro se seria preso, como exigem os EUA."Esses são detalhes que ainda temos de trabalhar. Não estou dizendo nada por enquanto", afirmou à Associated Press Karzai, líder do governo interino apoiado pelas Nações Unidas e que deve assumir o poder em 22 de dezembro.Até que os detalhes sejam finalizados e aceitos por todas as partes, inclusive os EUA, o acordo de rendição de Kandahar pode não ser concretizado. Karzai se recusou a dizer explicitamente se Omar será preso ou terá permissão para sair em liberdade.Karzai garantiu não saber o paradeiro de Omar nem de Osama bin Laden, o principal suspeito dos atentados de 11 de setembro nos EUA.Em Washington, o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, afirmou que os EUA não aceitarão nenhum acordo que permita a Omar permanecer livre e "viver com dignidade" na região."Nossa cooperação e assistência a essas pessoas mudariam de rumo se algo for feito em relação aos líderes (do Taleban) que não seja consistente com o que tenho dito", adiantou Rumsfeld.O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, saudou a notícia da rendição e disse que "parece que o colapso final do Taleban" é iminente. "É uma prova total de que a estratégia que perseguimos funcionou desde o início", afirmou ele em Londres.Em Quetta, Paquistão, um porta-voz do líder pashtun Gul Agha disse que seu grupo não estava contente com o acordo e nem com o comportamento de Karzai. Os pasthuns são o maior grupo étnico do Afeganistão."Gul Agha teve algumas discordâncias com Karzai", afirmou seu porta-voz, Abdul Jabbar. "Gul Agha ligou para Karzai e disse: ´Por que você não pediu nossa opinião antes de fazer o acordo com o Taleban? Nós também somos uma parte´".Abdul Salam Zaeef, antigo embaixador do Taleban no Paquistão, afirmou que combatentes da milícia em Kandahar começam a entregar suas armas para um líder local pashtun, mulá Naqib Ullah, a partir desta sexta-feira. Omar terá permissão de viver em Kandahar sob a proteção de Naqib Ullah, acrescentou."O mulá Omar tomou a decisão, levando em conta o bem-estar das pessoas, para evitar baixas e salvar a vida e a dignidade dos afegãos", disse Zaeef.Mas Jabbar rechaçou qualquer papel para Naqib Ullah numa transferência de poder, alegando que ele foi um aliado do Taleban. "Não concordamos com ele, e não o aceitamos", afirmou.Zaeef disse que o Taleban não iria render-se para Karzai. Mas o recém-apontado primeiro-ministro do Afeganistão garantiu que a milícia iria entregar-se a ele e que havia designado Naqib Ullah e outro líder pashtun, Gul Agha, para recolher as armas. Naqib Ullah manteve boas relações com o Taleban durante seus cinco anos no poder.Karzai afirmou que os combatentes talebans afegãos teriam permissão para voltar para suas casas, mas os lutadores estrangeiros leais a Bin Laden teriam de deixar o país ou seriam presos."Eles têm de partir do Afeganistão", disse Karzai sobre os árabes, paquistaneses, chechenos, uzbeques e outros. "Eles têm de enfrentar a Justiça."Mais cedo, Karzai tinha dito à AP que iria conceder anistia aos talebans comuns, mas não a Omar.Zaeef afirmou que a rendição será completada em três ou quatro dias, e depois caberá a Naqib Ullah decidir quem poderá entrar na cidade.Zaeef disse que a decisão de Omar foi tomada em vista dos fortes bombardeios aéreos dos EUA em Kandahar e visava evitar mais mortes de civis.Aviões de combate americanos têm atacado intensamente Kandahar por semanas, mas não houve bombardeios nesta quinta, aparentemente para facilitar as negociações.Também não estava claro se a rendição envolveria unidades talebans na cidade de Spinboldak, na fronteira com o Paquistão.Entretanto, Zaeef disse que o Taleban estava acabado como um movimento político. "Acho que deveríamos ir para casa", afirmou.Também nesta quinta, bombardeiros americanos B-52 atacaram duramente alvos nas Montanhas Brancas, no leste do Afeganistão, onde suspeita-se de que Bin Laden e outros líderes da Al-Qaeda estejam escondidos.Afegãos anti-Taleban lançaram nesta quarta-feira um ataque terrestre contra bastiões da Al-Qaeda, incluindo cavernas e túneis do complexo de Tora Bora.Leia o especial

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