Hoshang Hashimi/AFP
Hoshang Hashimi/AFP

Taleban usa tática de governos insurgentes ao se dizer moderado; leia análise

Esforço de relações públicas marca um novo capítulo na luta do grupo

Max Fisher*, The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 05h00

O Taleban pode ocupar os postos de fronteira do Afeganistão e os departamentos do governo, mas o que controla está distante de um país funcionando plenamente. Serviços como os de água, eletricidade e coleta de lixo estão paralisados, pois os funcionários se escondem em casa. O Banco Central está completamente vazio, uma vez que Washington congelou as reservas do governo afegão mantidas em bancos nos EUA. 

No entanto, para o Taleban, esses problemas podem ter uma possível solução: mostrar-se amigável. Um esforço de relações públicas marca um novo capítulo na luta do grupo.

Eles têm de convencer as potências a enviar ajuda e a suspender as sanções para restabelecer o que for mais essencial a um governo, sem falar na reconstrução de um país devastado por 42 anos de guerra. Essa também é uma estratégia adotada por quase todos os grupos rebeldes modernos para tomar o poder. “Os insurgentes vitoriosos necessitam muito de ajuda, apoio e legitimidade internacional, para consolidar seu regime”, escreveu Monica Duffy Oft, estudiosa de guerras civis. 

E isso pode levar décadas. Os rebeldes comunistas que tomaram a China continental, em 1949, só conseguiram o reconhecimento das Nações Unidas em 1971. De Washington, apenas em 1979, como parte dos anos de realinhamento da Guerra Fria. 

Mas o reconhecimento internacional agora vem principalmente pela demonstração de respeito pelos direitos humanos e políticos, como também o atendimento aos interesses de segurança das grandes potências. Quando os rebeldes ugandenses acusados de abusos de direitos humanos ocuparam a capital Kampala, em 1968, eles rapidamente prometeram moderação.

Eles não cumpriram as promessas feitas, mas conseguiram afastar os temores do mundo por uma margem suficientemente ampla para conquistarem reconhecimento diplomático e ajuda externa, consolidando seu poder. O governo rebelde foi até visto como modelo de reforma, na década de 90, mas hoje é considerado uma ditadura.

Em 1994, milícias tutsis assumiram o governo em Ruanda em meio a um genocídio dos seus cidadãos. Apesar das expectativas de assassinatos em retaliação, os rebeldes formaram um governo de união de várias etnias e implementaram um processo de reconciliação considerado modelo.

A democracia em Ruanda acabou descambando para o autoritarismo. Mas o país ainda recebe ajuda externa suficiente para promover pelo menos algumas promessas, incluindo o respeito às demandas ocidentais.

Se as promessas do Taleban forem reais, com certeza isso tem a ver com seu interesse pragmático. A expectativa dos governos estrangeiros é de que o grupo mantenha sua palavra enquanto o mundo acreditar que valha a pena enviar ajuda. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É JORNALISTA 

 

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