Talebans fogem de Kandahar levando suas armas

Forças do Taleban abandonaram, nesta sexta-feira, sem luta, mas com suas armas, seu último bastião, libertando Kandahar do duro controle da milícia islâmica. O novo líder do país declarou que o movimento Taleban está acabado e prometeu prender o fugitivo líder da milícia, mulá Mohhamed Omar. Entretanto, a situação em Kandahar era confusa. Facções rivais anti-Taleban se enfrentavam pelo controle da cidade, com um grupo acusando o outro de estar abrigando Omar. Uma agência de notícias paquistanesa divulgou que um porta-voz de Omar e o líder supremo do Taleban ainda estavam em Kandahar. Também houve notícias de que centenas de árabes leais a Osama bin Laden resistiam numa área da cidade.Os talebans também se entregaram, nesta sexta-feira, na cidade de Spin Boldak e nas províncias de Helmand e Zabul, no sul do Afeganistão. No leste, aviões de combate americanos bombardearam intensamente montanhas ao redor de Tora Bora, onde comandantes tribais - tendo avistado um homem alto num cavalo e interceptado comunicações de rádio perguntando sobre "o xeque" - estão cada vez mais certos de que Osama bin Laden se esconde no local.Abandonando sua promessa de defender Kandahar até a morte, o Taleban concordou na quinta-feira em entregar suas armas para um líder tribal e concretizar a rendição da cidade, berço do Taleban e seu último bastião.Mas quando forças tribais chegaram, nesta sexta, para implementar o acordo, a maioria dos talebans havia fugido, segundo o novo primeiro-ministro interino afegão, Hamid Karzai.Karzai prometeu prender Omar se conseguir encontrá-lo, depois que os EUA deixaram claro que não aceitariam um acordo que permitisse que o mulá continuasse livre."O Taleban fugiu com suas armas", afirmou Karzai. "Os líderes e os soldados, todos fugiram da cidade."O general Tommy Frank, chefe do Comando Central dos EUA para a campanha afegã, disse que aviões americanos e forças terrestres estavam bloqueando tropas talebans que escaparam da cidade. Ele não deu detalhes. "Estamos enfrentando forças que estavam deixando Kandahar com suas armas", afirmou ele em Tampa, Flórida.Alguns residentes, entretanto, relataram que alguns talebans entregaram suas armas antes de partir. Saques e disparos foram registrados em algumas partes da cidade, mas, ao cair da noite, um comandante afegão, supervisionando a troca de poder, disse que a situação se havia acalmado. "O processo de rendição foi completado e, agora, a cidade está calma e pacífica", disse Haji Bashar.Um oficial dos EUA em Washington, que pediu para não ser identificado, afirmou que forças da oposição controlavam a maior parte de Kandahar. Mas aviões americanos bombardearam os arredores da cidade - presumivelmente bolsões de resistência ou combatentes do Taleban e da Al-Qaeda tentando escapar.Fuzileiros dos EUA que patrulhavam uma rodovia nas proximidades de Kandahar atacaram na manhã desta sexta um comboio taleban de três carros, matando sete pessoas. Tratou-se do primeiro combate terrestre dos fuzileiros desde que estes estabeleceram uma base num deserto, nas proximidades de Kandahar, em 25 de novembro.Em Kandahar, testemunhas disseram que moradores entusiasmados saíram às ruas carregando fotos do deposto rei do Afeganistão. Outros retiraram a bandeira branca do Taleban e colocaram no local a insígnia da monarquia."O regime taleban está acabado. A partir de hoje eles não fazem mais parte do Afeganistão", afirmou Karzai, numa entrevista por telefone via satélite à Associated Press.Com o fim do poder do Taleban, os EUA se concentram agora no objetivo remanescente - apanhar Bin Laden, suspeito de organizar os atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos.No leste, nas majestosas Montanhas Brancas, jatos americanos bombardearam posições de combatentes árabes leais a Bin Laden ao redor do complexo de cavernas de Tora Bora.Comandantes tribais, conscientes da recompensa de US$ 25 milhões oferecida pelos EUA pela captura de Bin Laden, disseram ter tomado conhecimento de duas intrigantes informações: um grupo de combatentes avistou um homem parecido com Bin Laden num cavalo, visitando tropas na linha de frente; e outro relatou ter interceptado comunicação por rádio em árabe de Kandahar, questionando sobre "o xeque"."A resposta foi: ´O xeque está bem,´" disse o comandante Zein Huddin. Ele está convencido de que "o xeque" é Bin Laden.O Taleban aceitou se render em Kandahar depois de dois meses de ataques aéreos americanos e avanços das forças da oposição que os expulsaram da maior parte do país.Na confusa rendição de Kandahar não foi feita menção a Bin Laden ou às centenas de combatentes árabes, paquistaneses, chechenos e de outras nacionalidades que o seguem. Nesta sexta, a nova administração afegã prometeu capturar combatentes da Al-Qaeda e líderes do Taleban e levá-los à justiça."Para as pessoas que têm em suas mãos sangue do povo afegão, não haverá anistia geral", adiantou Younus Qanooni, o novo ministro do Interior, durante uma visita à Índia.Karzai acredita que Omar e o que restou do Taleban e da Al-Qaeda tenham ido para montanhas na província de Zabul, a nordeste de Kandahar. Um antigo amigo de Karzai e fundador do Taleban, mulá Mohammed Khaqzar, disse que os líderes talebans fugiram da cidade antes da rendição.Depois de ambíguas declarações nesta quinta-feira, Karzai prometeu, nesta sexta, levar Omar à justiça."Naturalmente que quero prendê-lo", afirmou. "Dei a ele todas as chances para denunciar o terrorismo e agora o tempo acabou. Ele é um fugitivo da Justiça."Karzai confirmou que houve caos em várias áreas de Kandahar após a partida do Taleban. Ele garantiu que não houve enfrentamentos entre forças rivais anti-Taleban.Entretanto, moradores relataram confrontos entre gangues armadas. Um residente disse que homens armados haviam montado barreiras em algumas das principais avenidas da cidade.Khalid Pashtun, um porta-voz do líder tribal Gul Agha, classificou de vergonhoso o acordo de rendição negociado por Karzai, que teria permitido que partidários do Taleban permanecessem no poder na cidade.Ele disse que forças de Agha entraram em Kandahar e capturaram a casa do governador e o quartel-general do Exército em combates contra tropas da nova administração da cidade. Pelo menos dois combatentes de Gul Agha teriam morrido.E, no primeiro relato de retaliação, forças de Agha anunciaram ter enforcado um homem que, segundo suspeitavam, participou do assassinato de Abdul Haq, um líder pashtun morto pelo Taleban em 26 de outubro enquanto tentava incentivar a oposição à milícia islâmica.O homem foi enforcado em Takhta Pull, logo ao sul de Kandahar.Leia o especial

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