''Talvez Lula veja que aproximação com Irã não foi inteligente''

Ex-candidato presidencial saúda ''mudança'' de posição de Dilma com relação ao regime iraniano

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

John McCain, senador republicano

O senador republicano John McCain, um dos mais influentes legisladores americanos e candidato derrotado por Barack Obama na eleição presidencial de 2008, comemorou a "mudança" da posição brasileira em relação ao Irã. E disse em entrevista exclusiva ao Estado que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode estar arrependido de suas declarações mais amigáveis em relação ao governo iraniano. A recusa do Brasil a apoiar sanções contra o programa nuclear iraniano foi motivo de muitos atritos entre Brasília e Washington no governo Lula. McCain teve recepção quase presidencial no Brasil. Foi recebido ontem à tarde por 40 minutos pela presidente Dilma Rousseff, meia hora pelo ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, e o vice-presidente Michel Temer, e, pela manhã, por 45 minutos o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Quando veio para a posse de Dilma, a secretária de Estado Hillary Clinton nem sequer conseguiu 15 minutos com a presidente eleita por problemas de agenda - segundo autoridades americanas, a reunião não foi requisitada. Antes do Brasil, McCain foi à Colômbia, e daqui irá para o Chile, Panamá e México. Abaixo, trechos da entrevista ao Estado.

Os EUA podem cooperar com o Brasil para o policiamento de fronteiras?

Nós poderíamos oferecer assistência técnica. Mas, francamente, não acho que os brasileiros estão muito interessados em ter nenhuma presença militar americana ou receber conselhos. Mas a resposta real à segurança das fronteiras é a tecnologia. Discutimos com o ministro Jobim sobre veículos aéreos não tripulados e cercas virtuais.

E terrorismo?

Discutimos as ameaças à segurança dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo que serão realizados no Brasil. Obviamente, os terroristas querem ir aonde podem fazer suas ações mais espetaculares. Não existem organizações terroristas no Brasil, mas certamente há pessoas que estão de olho nesses eventos como alvos de ataques terroristas.

Como o Brasil deveria cooperar com os EUA na questão iraniana?

Amigos discordam de vez em quando. Obviamente, nós encaramos a busca do Irã por armas nucleares, e a opressão de seus cidadãos, incluindo o apedrejamento de mulheres, como comportamento aquém de qualquer norma civilizada, e vamos continuar a condenar.

O sr. espera uma mudança do Brasil em sua posição em relação ao Irã?

Vi a entrevista em que a presidente condena esse comportamento bárbaro do Irã. Achei interessante as declarações da presidente Dilma, ela teve experiência nesse tipo de tratamento por um governo, acho que já há mudança (na posição brasileira). E olha, as pessoas não são perfeitas; talvez, em retrospecto, o ex-presidente veja que essa (aproximação com o Irã) não foi a coisa mais inteligente que ele fez, afinal, os brasileiros acreditam na democracia.

O sr. costumava falar, durante a campanha, na necessidade de criar uma Liga de Países Democráticos para contrabalançar a ascensão de regimes autoritários.

Por causa da emergência da China, vemos menos esforço dos países democráticos para o respeito aos direitos humanos, e por isso precisamos cada vez mais de uma Liga das Democracias. E o Brasil seria ideal, pois emergiu sem ter se envolvido em conflitos militares, e evoluiu de uma ditadura militar para uma das democracias mais eficientes do mundo. Mas o Brasil tem se alinhado mais frequentemente com países emergentes que não se destacam por credenciais democráticas, como China, Venezuela, Irã. O Brasil às vezes faz coisas com as quais não concordo. Mas acho que nós concordamos em 90% dos casos. E, especialmente na América Latina, o Brasil tem desempenhado um papel de intermediador que é muito bem-vindo.

O sr. concorda com a percepção de que o governo petista tem relações melhores com os republicanos do que com os democratas?

(Risos). Na minha opinião, isso aconteceria mesmo. Mas quando vejo como a presidente Dilma e a secretária Hillary Clinton se deram bem. Conversei com a secretária, e ela disse que ficou muito bem impressionada com a presidente Dilma.

Qual recado o sr. trouxe à presidente Dilma?

Queremos uma cooperação cada vez mais próxima, não apenas no mundo, mas também na região. Há algumas áreas muito instáveis neste hemisfério, onde o Brasil pode desempenhar um papel importante, garantir que não piorem.

Que papel o sr. espera que o Brasil cumpra na Venezuela?

Espero que o Brasil ajude a convencer as pessoas em nosso hemisfério de que governar por decreto, como Chávez está fazendo, não é democracia. E que as políticas que ele está adotando estão destruindo a economia venezuelana. Quero enfatizar que Brasil e EUA não concordarão em todas as questões, somos países diferentes, com prioridades diferentes.

Analistas nos EUA afirmam que o tiroteio no Arizona, que resultou na morte de seis pessoas e tinha como alvo a deputada democrata Gabrielle Giffords, é resultado de um clima de polarização política e uma retórica antigoverno radical. O sr. concorda?

Concordo que a retórica foi longe demais nas campanhas políticas. Mas ainda não vi conexão entre retórica política e um indivíduo demente.

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