Brittainy Newmna/The New York Times
Brittainy Newmna/The New York Times

'Talvez possamos ser amigos': nova-iorquinos ressurgem numa cidade mudada

Mesmo com muita gente deixando a região para o feriado do 4 de Julho, alguns núcleos de atividade dão um vislumbre da vida pós-pandemia

John Leland, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2021 | 20h00

NOVA YORK - No feriado de 4 de julho, Iyabo Boyd fez duas coisas que eram impensáveis há um ano. Foi a um churrasco no jardim de alguém que não conhecia e ali se encontrou com novas pessoas.

Lendo, sentada em um banco no Franz Sigel Park, no Bronx, na segunda-feira, Iyabo, 36 anos, disse que ficou a maior parte do tempo fechada em casa durante a pandemia. Finalmente, no fim de semana, isso mudou. “Conhecer novas pessoas foi realmente adorável. Foi como dizer 'hei, talvez possamos ser amigos!'”, disse ela.

Na Times Square, Ryan Bowen, 28 anos, visitava Nova York pela segunda vez em tempos de pandemia, vindo de Tampa, Flórida. Em outubro, ele e sua namorada estiveram na cidade e havia pouca coisa para fazer porque tudo estava fechado. Agora, os restaurantes estão abertos, houve fogos de artifício, o transporte para a Roosevelt Island voltou - não foi exatamente um retorno aos velhos tempos, mas um passo nessa direção. “É uma sensação ótima poder passear”, disse ele.

Outrora era possível imaginar a cidade retornando totalmente ao que era. Agora, seja lá o que vier, Nova York parece mais uma improvisação coletiva gigante, uma cidade tomando a forma enquanto segue. O fim de semana de feriado foi o momento de descobrir o que a cidade era e ter um vislumbre do que pode se tornar.

Para muitos, os três dias de feriado foram uma ocasião para fazer coisas que não faziam há mais de um ano. Turistas chegaram à cidade e nova-iorquinos se amontoaram nos aeroportos, nas estradas e em locais de destino muito procurados. Alguns parques estavam vazios e áreas de estacionamento na cidade estavam cheias. Mas no caso dos que ficaram e se reuniram, nada venceu a autêntica alegria catártica de poder abraçar amigos ou parentes idosos novamente.

Para alguns, o feriado foi uma oportunidade para sair de casa. A previsão era de que cerca de 50 milhões de americanos viajariam nos primeiros cinco dias de julho, o segundo maior número de viajantes num feriado prolongado já registrado, segundo dados da AAA Northeast. As viagens aéreas saltaram para 90% dos níveis antes da pandemia.

A cidade, antes o epicentro da pandemia, com milhares de casos novos diários, na semana passada contabilizou uma média de 193 novos casos e três mortes por dia. A variante Delta, que se propagou por muitas áreas do país, respondeu por 17% das novas infecções.

Mas a cidade não é a mesma. A pandemia matou 33 mil nova-iorquinos e algumas pessoas duvidam que a cidade um dia vai se recuperar de verdade. No South Bronx, Daniel Derico, fotógrafo de 43 anos, disse que apesar da “grande mudança”, vendo menos pessoas com máscaras, não acha que Nova York retornará ao que era antes.

“Por exemplo, entrar num elevador com 10 ou 15 pessoas. Acho que as pessoas jamais farão isso novamente sem pensar um pouco. E acredito que no minuto em que esquecermos e ficarmos tranquilos demais com aquele normal pré-covid, isso significará um sinal de alerta novamente”.

Muita coisa continua mudando: novos cachorros, novos carros, novos restaurantes ao ar livre - o quanto tudo isso é permanente e o quanto está destinado a seguir o caminho da máscara dupla?

Os escritórios ainda estão decidindo como e onde as pessoas irão trabalhar. O buraco fiscal da cidade - e o que isso significa para o seu transporte, seu parque, a escola do seu filho - muda diariamente. Ainda não se sabe quem será o próximo prefeito. Está na hora de viajar de metrô diariamente? Retornar à igreja, à sinagoga, à mesquita? A onda de crimes está voltando aos velhos e maus dias? Um ano depois da confluência da covid-19 e os protestos após a morte de George Floyd, a cidade é um lugar que mudou e vem mudando, com as cicatrizes, os medos e as esperanças disputando a primazia.

O crime continua uma preocupação para os nova-iorquinos, mas especialmente para as pessoas que olham a cidade de longe, perguntando se é seguro visitá-la.

Sinais de uma cidade despertando são fáceis de encontrar. Em Carroll Gardens, na segunda-feira, a calçada diante da sorveteria Dolce Brooklyn parecia uma festa.

“As pessoas no Brooklyn realmente querem sair para a rua”, disse a proprietária Kristina Frantz, manifestando seu alívio com o fato da sua sorveteria ter sobrevivido e até prosperado durante a pandemia. “As pessoas estão achando que a pandemia já passou. Observamos isso diariamente”.

O negócio deve melhorar em relação ao ano anterior, disse Kristina, mas no ano passado as vendas também aumentaram, com as pessoas do bairro, presas em casa, buscando o seu produto. “Sorvete é algo que faz você se sentir bem. As pessoas querem se dar um pouco de prazer”.

No Fort Greene Park, no Brooklyn, estranhamente vazio, duas amigas vindas de Houston, Claire de Blanc, 23 anos, e Mary Brodeur, 22, desfrutavam do espaço aberto e a catarse de finalmente viajarem novamente, depois de um ano sombrio.

As duas contraíram o vírus, disseram, e estão totalmente vacinadas. Mas quando foram a um bar festejar com amigos no fim de semana em Manhattan, ficaram surpresas com o número de pessoas usando máscaras.

“Houston é muito diferente”, disse Claire. Lá eles tinham que ir atrás dos clientes que se recusavam a usar máscara nos restaurantes, mesmo no auge da pandemia no Texas. As pessoas em Nova York, segundo ela, parecem mais conscientes.

David Manzano, 36 anos, que vive no South Bronx, comemorava o feriado com amigos e a família, em casa e sem máscara. Num certo momento, decidiu refletir sobre o que havia feito no ano anterior, mas não foi possível. A pandemia confundiu tanto a sua mente que ele nem conseguia lembrar o que fez no dia 4 de julho.

Disse que não está pronto ainda para dizer que Nova York voltou ao normal. Mas que este é um bom começo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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