Também defenderei Tiananmen

Pequim nega os fatos há 25 anos e o presidente Xi Jinping parece ainda mais paranoico

Murong Xuecun*, The New York Times

31 Maio 2014 | 06h00

Dia 6, três amigos foram presos em Pequim por suspeita de “causar rixas e provocar problemas”. São eles Xu Youyu, ex-pesquisador na Academia Chinesa de Ciências Sociais, professor Hao Jian da Academia de Cinema de Pequim, e Pu Zhiqiang, destacado advogado de direitos humanos.

Três dias antes, meus três amigos e uma dezena de outras pessoas se reuniram na casa de Hao Jian para discutir a repressão na Praça Tiananmen (da Paz Celestial), 25 anos atrás, quando uma quantidade enorme de estudantes tomaram as ruas pedindo democracia e o fim do regime ditatorial e da corrupção oficial.

Os protestos pacíficos duraram quase dois meses, mas, no fim, o governo enviou tropas e tanques, matando várias centenas - possivelmente vários milhares - de cidadãos desarmados. O primo de Hao Jian estava entre os mortos.

Eu queria participar da reunião, mas tive de viajar para a Austrália, onde sou escritor residente na Universidade de Sydney. Um dos presentes leu um ensaio que escrevi sobre a repressão em Tiananmen. Por difícil que seja acreditar, ler em voz alta um ensaio como esse numa reunião privada pode violar as leis chinesas. Pela lógica do governo, eu também cometi o crime de “causar rixas e provocar problemas”. Vou me entregar.

Para mim, a repressão em Tiananmen foi o início de um despertar gradual. Eu tinha apenas 15 anos em 1989, um aluno do ensino médio numa remota aldeia montanhosa na Província de Jilin, nordeste da China. Tudo que eu sabia dos eventos daquele ano veio inteiramente da TV estatal CCTV.

Os manifestantes eram baderneiros antirrevolucionários. O Exército de Libertação Popular exerceu uma grande contenção e não abriu fogo, enquanto alguns baderneiros queimavam soldados vivos. Acreditei em tudo isso. Cheguei a ser grato ao governo e ao Exército por salvarem a nação.

Aos poucos, os eventos de 1989 saíram do palco central. Todos estavam ocupados se formando nas universidades ou enriquecendo, como se nada houvesse acontecido. Mesmo hoje, a repressão em Tiananmen continua sendo um dos maiores tabus na China moderna. Pequim vem tentando apagar nossa memória coletiva com a adoração de uma economia vibrante, mas a mais traumática das lembranças jamais foi inteiramente apagada. Ela continua viva no povo, apesar dos esforços determinados de Pequim para suprimir sua história.

Pouco depois de eu entrar na universidade, em 1982, um estudante veterano veio ao nosso dormitório, sentou-se e pediu um cigarro. Ele nos perguntou se sabíamos o que havia ocorrido na escola em 1989. Nós dissemos que não. Ele deu uma tragada profunda e nos contou solenemente que, durante o incidente em Tiananmen, alunos de nossa escola, a Universidade de Direito e Ciências Políticas da China, foram os primeiros a ganhar as ruas. Eles foram, segundo ele, os primeiros a coordenar laços com manifestantes de outras universidades.

Desde então, fui entendendo o que realmente houve em 1989 e seu significado para a China e para o mundo. O governo pode ter condenado os participantes como “criminosos”, mas nós estudantes consideramos o momento como glorioso. Achamos uma grande honra ter uma conexão mesmo que pequena com o movimento democrático. Os nossos universitários viraram uma lenda. Em 1994, quando eu era o veterano sábio em visita ao dormitórios dos novos alunos, também dei uma tragada profunda no meu cigarro e declamei solenemente: “Durante o incidente Tiananmen de 1989, esta universidade...”

A essa altura, todos os vestígios de Tiananmen haviam sido limpos e os buracos de bala cimentados, mas por todas as partes da cidade a história circulava de boca em boca. Em 2003, um amigo comprou em Hong Kong um documentário sobre a repressão. Num instante, todos fizemos cópias.

Um dia, eu o assisti com amigos num bar de Guangzou. Uma cena em particular me chocou. Um jovem jazia estendido na ampla avenida em meio ao som do tiroteio intermitente. Achamos que ele estava morto, mas ele começou a rastejar em círculo. Não ousava se levantar, mas não queria permanecer onde estava, se fingindo de morto. Arrastar-se era melhor que não fazer nada. “Se eu estivesse lá”, disse um trabalhador que estava parado atrás de nós, “eu o teria carregado para a segurança.” Sempre que sou perguntado sobre o futuro da China, conto essa passagem do trabalhador migrante de Sichuan.

Agora, em plena era da internet, o governo não consegue mais controlar toda informação. Cada vez mais pessoas realizam suas próprias celebrações de Tiananmen. Todo ano, no dia 4 de junho, velas virtuais são acesas. Fotos circulam online. Censores fazem muita hora extra para deletar qualquer combinação dos números 6 e 4, além de qualquer referência a Tiananmen.

Apesar da censura, centenas de milhares de pessoas persistem. Se não conseguem incluir “6/4” numa postagem, tentam “5/35”. Se os censores bloqueiam uma postagem com o número “1989”, elas a mudam para “o último ano da década de 80”, ou “o ano antes de 1990”. Não pode mencionar “tanques”? Tente “tratores”.

Pequim vem negando os fatos há 25 anos e agora o presidente Xi Jinping parece mais paranoico que seus antecessores. A reunião na casa de Hao Jian era uma mera “comemoração do 4 de junho”. Uma reunião semelhante foi realizada cinco anos atrás, durante o governo de Hu Jintao, e ninguém foi preso.

Superficialmente, o governo parece forte, com mais de 80 milhões de membros do Partido Comunista, milhões de soldados e US$ 4 trilhões de reservas em moedas estrangeiras -, mas ele é, na verdade, tão frágil que seus líderes perdem o sono quando alguns pesquisadores se reúnem numa residência privada.

Depois que meus amigos foram presos, anunciei que me entregaria tão logo voltasse da Austrália, em julho. A maioria me pediu para esperar o momento certo, mas pensei muito no assunto e, se a situação continuar se deteriorando, não posso ficar indiferente. Se também for preso, talvez mais chineses sejam despertados para as realidades de sua situação. Minha prisão será minha contribuição para resistir aos esforços do governo para apagar a memória do país. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É ESCRITOR E BLOGUEIRO

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