Tanques prendem Arafat em seu escritório

Tanques israelenses cercaram nesta sexta-feira o escritório do líder palestino Yasser Arafat, na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, mantendo-o sob um virtual regime de prisão domiciliar, um dia depois de um militante palestino armado entrar num salão de festas e matar seis pessoas, no primeiro ataque mortal contra civis dentro de Israel em mais de um mês e meio. Aviões de combate F-16 bombardearam um complexo de prédios pertencentes à Autoridade Palestina (AP), na cidade cisjordaniana de Tulkarem, matando um policial palestino e ferindo outras 61 pessoas, entre policiais e civis. Israel alega estar pressionando Arafat para que ele persiga os militantes islâmicos. Raanan Gissin, um assessor do primeiro-ministro Ariel Sharon, disse que Arafat ficaria "limitado a seu escritório até que cumprisse com suas obrigações". Segundo ele, os soldados que se encontram em torno do escritório do líder palestino cumpriam um "estrito cerco", apesar de outros funcionários israelenses terem comentado que ninguém disse a Arafat que ele não poderia abandonar o local. O líder palestino passou as últimas semanas confinado em Ramallah. Israel diz que só o deixará sair de lá quando prender os assassinos do ex-ministro de Turismo Rehavam Zeevi. Porém, as restrições impostas nesta sexta-feira contra ele não têm precedentes. Desde o anúncio de uma trégua informal, em 16 de dezembro, as forças de segurança de Arafat detiveram diversos militantes. A detenção de Ahmed Saadat, líder da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), segunda maior facção da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), desencadeou manifestações diárias na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. A facção de Saadat assumiu a autoria do assassinato de Zeevi, em outubro. Arafat vem afirmando nos últimos dias que as represálias do Estado judeu fazem parte de um plano secreto de Sharon, seu antigo inimigo, para derrubá-lo. O gabinete israelense nunca adotou a decisão de tentar derrubar Arafat. Porém, Sharon já classificou o líder palestino de "grande inimigo" e "terrorista". Arafat continuou trancado em seu gabinete nesta sexta-feira, evitando até mesmo caminhar entre o local e uma mesquita onde ele costuma fazer suas preces. Ao invés disso, preferiu rezar com seus assessores e seguranças em uma sala vazia onde há somente tapetes. Funcionários palestinos disseram que ele evitou caminhar até a mesquita para não se expor à mira dos israelenses. Dois tanques e um blindado de transporte de tropas estavam estacionados a poucos metros da entrada de seu gabinete nesta sexta-feira. Motoniveladores israelenses amontoaram terra em uma das quatro ruas de acesso ao local, bloqueando o local para o tráfego. Mais de 20 tanques de guerra assumiram posições em Ramallah, e soldados realizaram operações de busca na casa de Tawfic Tirawi, chefe do serviço secreto palestino. Num determinado momento, cerca de 4.000 palestinos marcharam na direção do gabinete de Arafat para protestar contra as incursões israelenses e exigir a libertação de supostos militantes palestinos detidos pela AP, entre os quais está Saadat. "Autoridade Palestina, traidora, liberte os prisioneiros políticos", gritavam os manifestantes. Cerca de 200 pessoas separaram-se dos protestos para atirar pedras contra tanques israelenses. Soldados lançaram bombas de gás lacrimogêneo e dispararam balas de borracha e munição real. Três palestinos foram feridos pela munição real, um deles gravemente. Os protestos destacam o dilema vivido por Arafat. Se ele desmatelar os grupos militantes, como pedem Israel e os Estados Unidos, corre o risco de observar a disseminação da violência pelas ruas. Se não agir, Israel adotará represálias ainda mais severas. Em um salão de festas de Hadera, cerca de 180 pessoas estavam reunidas para o bat mitzvah de Nina Kardashova, de 12 anos, quando um homem armado entrou atirando e gritando palavras em árabe. Seis pessoas morreram, inclusive, o avô de 63 anos de Kardashova. Outras 30 ficaram feridas, informou a polícia. O homem foi morto pela polícia. Ele foi identificado como Abed Hassouna, ex-policial palestino e membro das Brigadas Al-Aqsa, milícia ligada ao movimento político Fatah, de Arafat. Nesta sexta-feira, o Canal 2 da tevê israelense divulgou um vídeo amador do ataque ocorrido na noite desta quinta. Os convidados dançavam na pista quando foram ouvidos os primeiros tiros. Gritando, algumas pessoas procuraram proteger-se. Uma mulher levantou o vestido para poder correr melhor enquanto um homem pegou uma garrafa e correu na direção de onde ouviu os disparos. O ataque de Hadera foi a primeira ação de palestinos contra civis em Israel desde a explosão de um ônibus em 2 de dezembro em Haifa, quando 16 israelenses morreram. Em Tulkarem, homens armados disseram ter respeitado a trégua informal declarada por Arafat, mas disseram ser impossível mostrar contenção depois do assassinato de seu líder, Raed Karmi, no início da semana. Os palestinos acusam Israel pelo crime. "Em três semanas, os grupos da Fatah não dispararam nenhuma bala", disse Raed Kanaan, líder da Fatah em Tulkarem. "Mas Israel e o mundo não aceitam isto. Israel prosseguiu com suas agressões, enquanto os norte-americanos respaldam a agressão israelense."

Agencia Estado,

18 Janeiro 2002 | 17h47

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