''Tarefa deve ser apenas a de conter os radicais''

Zbigniew Brzezinski: cientista político; para Zbigniew Brzezinski, EUA não devem correr o risco de promover 'construção nacional' afegã

Entrevista com

Nathan Gardels, GLOBAL VIEWPOINT, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2009 | 00h00

Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro de segurança nacional, durante o governo de Jimmy Carter (1977-1981), foi um dos artífices das propostas para a política externa do então candidato Barack Obama para a campanha presidencial do ano passado. Uma das mais respeitadas autoridades de sua área no Partido Democrata, ele é cético em relação à eficácia do planejado reforço de tropas dos EUA no Afeganistão e defende a tese de que um envolvimento por longo prazo no país levaria os afegãos a ver os soldados americanos da mesma forma como viam os militares soviéticos de 1979 a 1989: como uma força invasora disposta a ocupar o país. Nascido em Varsóvia, na Polônia, em 1928, Brzezinski é considerado por jornalistas americanos o equivalente democrata do republicano Henry Kissinger. Estes são os principais trechos da entrevista que ele concedeu à Global Viewpoint.

A missão no Afeganistão não está se transformando num compromisso prolongado no lugar errado, especialmente quando há consenso no serviço secreto quanto ao fato de a Al-Qaeda estar agora instalada no Paquistão?

O risco crescente que enfrentamos no Afeganistão e no Paquistão é de o Taleban - ainda apoiado apenas por uma minoria - começar a ser visto como movimento de resistência contra uma ocupação estrangeira "infiel", personificada pelos americanos. Os soviéticos foram vistos apenas um ano após a invasão. Quando chegamos ao Afeganistão, há quase 8 anos - e com um contingente bastante reduzido -, fomos bem recebidos. Se não tomarmos cuidado, podemos ser vistos pelos afegãos sob o mesmo prisma que eles enxergavam os soviéticos, e isso seria uma derrota estratégica.

Para o Taleban, um ano é menos do que um instante. Eles ainda estão combatendo a infiltração do budismo no país, ocorrida há milênios. Não parece claro que eles esperarão o fim do aumento de soldados estrangeiros e simplesmente retornarão mais tarde?

É por isso que precisamos tirar proveito da complexa e tradicional política afegã como ponto de partida para vários acordos locais que respondam à diversidade étnica e tribal do país - tendo em mente que nem todas as formações de "taleban" mantêm algum tipo de compromisso vinculante com a Al-Qaeda. Além disso, precisamos conferir um maior peso aos interesses geopolíticos paquistaneses na nossa análise estratégica se quisermos um esforço completo do Exército paquistanês para romper o apoio dos pashtuns de ambos os lados da fronteira à insurgência e acabar com os santuários usados pela Al-Qaeda.

Aumentar o número de soldados não reforça a impressão de uma ocupação e cria mais resistência?

Durante os últimos dois anos, fiz comentários revelando meu ceticismo em relação ao envio de reforços. Apesar de nossa intervenção ser necessária para derrubar o regime Taleban (pois ele dava abrigo seguro à Al-Qaeda), não deveríamos permanecer no Afeganistão envolvidos em algum tipo de exercício de "construção nacional" após a deposição dos fundamentalistas.

Por que não buscar simplesmente conter a Al-Qaeda - como no Iêmen e na Somália - em vez de tentar transformar o Afeganistão, uma perspectiva que levaria décadas para se concretizar?

Concordo. Afinal, já que a Al-Qaeda é capaz de transferir-se para outro lugar, será que devemos travar guerras prolongadas em cada país em que a organização decidir se esconder? Mas precisamos também reconhecer que uma política afegã de mais ênfase na progressiva acomodação política e na estabilização - e menos concentrada na contrainsurgência personificada pelas forças militares dos EUA e da Otan - exigirá ainda por algum tempo o auxílio militar e econômico da comunidade internacional e em especial dos EUA.

Onde está a lógica na construção de escolas no Afeganistão para um governo corrupto e ineficaz quando na Califórnia, por exemplo, prisioneiros são libertados e professores são demitidos por causa da crise fiscal? A inconveniente realidade é que a força de vontade insuficiente do público americano não se compara ao compromisso profundo da mentalidade tribal pashtun contra os estrangeiros, que já dura séculos. Já não vimos isso antes numa outra guerra?

Eu diria apenas, de maneira bastante geral, que devemos superar o slogan da "corrupção", que costumamos empregar como justificativa quando abandonamos alguém que depende de nosso auxílio. Trata-se de algo de notável mau gosto vindo de um país cujo sistema político e financeiro não se mostrou imune à uma corrupção bastante generalizada.Quanto à questão mais ampla do papel desempenhado pelos EUA no Afeganistão, os americanos devem aceitar a oportuna proposta feita por líderes alemães, britânicos e franceses para a realização de uma conferência internacional cujo objetivo seria definir uma estratégia para transferir as responsabilidades de segurança da Otan para os afegãos. Dois benefícios de longo prazo poderiam resultar disto: a redução do risco da guerra se tornar uma disputa entre estrangeiros e afegãos; e uma menor probabilidade dos nossos aliados europeus abandonarem completamente o conflito, o que deixaria os EUA sozinhos.

Quem é:

Zbigniew Brzezinski

Um dos estrategistas de maior destaque nos EUA. Foi conselheiro de segurança nacional do presidente americano Jimmy Carter quando os soviéticos invadiram o Afeganistão

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