Shawn Thew/EFE
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Tarifas de Trump não funcionarão

Medidas desencadearam o maior protecionismo desde Nixon, em 1971; e tarifas custaram a consumidores e empresas dos EUA em 2018 US$ 68,8 bilhões

Fareed Zakaria / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2019 | 06h50

O presidente Trump desencadeou o que pode acabar evoluindo para uma guerra comercial completa. Ao percorremos esse caminho, vale a pena ter algo em mente: as tarifas não funcionam. Não estou insistindo na teoria do livre mercado; estou simplesmente fazendo uma observação prática. Houve muitos esforços nas últimas décadas para ajudar indústrias em declínio na América. Não consigo pensar em nenhum caso em que as tarifas tenham conseguido reverter esse declínio, exceto temporariamente.

Tomemos o exemplo mais recente antes de Trump – tarifas sobre pneus impostas por Obama. Em 2009, após reclamações de empresas americanas sobre as baratas importações chinesas, o governo Obama impôs uma tarifa de 35% sobre os pneus chineses. Cerca de 1.200 empregos foram salvos na indústria de pneus, segundo o Instituto Peterson.

Mas o instituto também estima que os consumidores pagaram cerca de US$ 1,1 bilhão em preços mais elevados, o que causou a perda de 3.700 empregos no setor de varejo. O custo por pneu poupado foi de quase US$ 1 milhão. Além disso, a China retaliou com tarifas sobre os produtores americanos de frango, o que, segundo Peterson, levou a US$ 1 bilhão em vendas perdidas. E quanto ao efeito de longo prazo? Em 2008, havia 60 mil americanos trabalhando na indústria de pneus. Em 2017, havia 55 mil.

Robert Lighthizer, o principal negociador comercial de Trump, aprendeu suas táticas nos anos 80, quando os americanos estavam preocupados com o fato de o Japão estar assolando a economia dos EUA com as importações baratas. Como vice-chefe de comércio de Ronald Reagan, Lighthizer empregou várias barreiras comerciais para reduzir as importações de produtos japoneses como carros e aço. Doug Irwin observou recentemente na Foreign Affairs que dois estudos da Comissão de Comércio Internacional e do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) concluíram que esses tipos de medidas eram ineficazes.

Examine as tarifas sobre aço e alumínio de Trump. A Aliança para Fabricantes Americanos, pró-tarifas, afirma que 12,7 mil empregos foram salvos ou adicionados. Mas o Instituto Peterson calcula que os preços mais altos do aço custam às empresas americanas cerca de US$ 11,5 bilhões por ano, ou cerca de US$ 1 milhão por emprego salvo no setor de aço. A produção de alumínio nos EUA aumentou ligeiramente, mas ainda está bem abaixo dos níveis de 2015.

Os EUA ocupam um lugar central nas cadeias de fornecimento globais, com muitas indústrias usando-o como um polo para produzir bens e serviços. Se o país se tornar uma fortaleza de tarifas elevadas, perderá seu lugar central na economia internacional. O Departamento Nacional para Pesquisa Econômica, não partidário, divulgou um documento em março observando que Trump desencadeou o maior retorno ao protecionismo desde Nixon, em 1971. Os estudiosos calcularam que as tarifas de Trump custaram em 2018 aos consumidores e empresas dos EUA inacreditáveis US$ 68,8 bilhões por ano.

Os EUA agora têm as tarifas mais altas entre o G-7, o grupo dos principais países industrializados do mundo. Com o tempo, outras nações certamente se tornarão mais protecionistas. E a história sugere que, uma vez impostas, as tarifas são difíceis de serem suprimidas, já que os lobbies domésticos defenderão sua manutenção. 

É verdade que a China tem adotado uma espécie de fraude comercial, embora, na maioria das vezes, tenha sido inteligente em usar e manipular as regras em seu benefício. Mas, para colocar as coisas em perspectiva, o país que impôs as medidas protecionistas mais não tarifárias desde 1990 foram os EUA, com três vezes o número da China. E isso foi antes de Trump. Mais importante ainda, embora Trump queira que a China cumpra as regras da Organização Mundial do Comércio, muitas de suas medidas estão ou em contravenção com essas normas ou em flagrante abuso delas. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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