Tártaros temem nova onda de expulsões na península

Perseguidos por Stalin, comunidade muçulmana de origem turca boicota referendo e quer ficar na Ucrânia

Andrei Netto, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

17 de março de 2014 | 02h01

SIMFEROPOL, UCRÂNIA - Em lugar de milicianos russos e cossacos, soldados de capacetes azuis da ONU. É dessa forma que Mustafá Djemilev, líder da comunidade tártara, espera ver a Crimeia o mais breve possível. Muçulmana e descendente de turcos, a minoria de tártaros já foi perseguida e expulsa da Rússia por Stalin. Após o resultado do referendo, ele teme retornar ao domínio da Rússia.

O grupo étnico que se espalha por oito países está presente na região central e no sul da Rússia, mas, para Djemilev, pouco importa. Ele fez campanha pelo boicote ao referendo como forma de garantir que sua comunidade não sofra perseguições no futuro. Como não vê chances de que as tropas da ONU de fato intervenham, ele defende que a Otan envie soldados para impedir a anexação.

"Se os outros métodos não funcionam, talvez a Otan deva enviar suas forças", disse. "Eles fazem, em geral, só quando há um massacre. Nós gostaríamos que eles chegassem antes que o massacre ocorra."

O temor pode até soar inverossímil, mas tem origem histórica. Em 18 de maio de 1944, Stalin assinou um decreto ordenando a deportação de todos os tártaros - 218 mil - para a Ásia Central, em punição pela colaboração com os nazistas. Dezenas de milhares ficaram pelo caminho, mortos de fome ou por doenças. Só em 1989, o decreto foi anulado e a comunidade pôde retornar à Crimeia.

Agora, o maior problema da população tártara, estimada entre 12% a 15% dos 2 milhões de habitantes da península, é que seus líderes foram ativos na defesa do movimento Euromaidan, organizado por militantes favoráveis à assinatura de um acordo de associação da Ucrânia com a União Europeia.

O Estado conversou com membros da comunidade tártara, que se mostraram preocupados. Os muçulmanos que vivem em Simferopol são discretos. Falam pouco e não querem se identificar. "Ninguém quer aparecer porque estamos com medo", disse um membro da comunidade. "Não sabemos o que vai acontecer." Na sexta-feira, porém, houve uma leve mudança. Um pequeno grupo de muçulmanos protestou com faixas que diziam "Fora Putin" e "Soldados russos, voltem para casa".

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