Taxa revolta aposentados e custa votos na Flórida

Parte do eleitorado do Estado do 'sol e do imposto baixo' tem aversão a Obama, que mexeu nas contribuições

SUN CITY CENTER, FLÓRIDA, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h06

Nos estacionamentos dos supermercados de Sun City Center, no sul da Flórida, há vagas para carrinhos de golfe. Muitos aposentados provenientes de todo o país - atraídos para o "Estado do sol e do imposto baixo" - circulam pela cidade nesses veículos, sinônimo de férias permanentes. Aqui, a popularidade dos carrinhos é inversamente proporcional à de Barack Obama, o detestado presidente que ousou aumentar a contribuição dos aposentados.

"Já paguei pela minha aposentadoria, desde que comecei a trabalhar, aos 15 anos, e agora me dizem que tenho de pagar para ter cobertura", revolta-se Susanne Conrad, de 65 anos, que trabalhou na administração de empresas na Pensilvânia e em Michigan. "Tenho um desconto de US$ 100 por mês da minha aposentadoria para ter cobertura, pela qual já paguei nos últimos 50 anos. Isso não está certo."

"Não gosto particularmente de Romney, mas gosto dele muito mais do que da alternativa", explicou Susanne, sentada em seu carrinho de golfe. "Espero que o próximo presidente faça a América voltar a ser uma economia financeiramente estável e as pessoas não passem mais fome", continuou ela, segurando um hambúrguer do almoço interrompido pela entrevista. "Estamos alimentando outros países e temos pessoas famintas aqui."

"Meu marido é piloto e tem de se aposentar dentro de um ano, aos 65 anos", conta a texana Kathie Gautille, de 53 anos, que veio visitar o pai doente. "Temos de contar com o dinheiro que poupamos, e é assustador." Como muitos trabalhadores americanos, o casal foi prejudicado pela desvalorização das ações dos fundos de pensão na crise de 2008. "Teremos de rebaixar nosso padrão de vida." Ela afirma também que perdeu seu emprego numa entidade católica em razão de uma mudança na lei promovida pelo governo Obama, que eliminou a dedução de imposto de renda sobre doações para caridade. "Romney será capaz de resolver os problemas da nossa economia, pois ele entende o capitalismo e como o empreendedorismo funciona.".

A reforma feita por Obama nos sistemas de seguridade social e de saúde, com o objetivo de reduzir o déficit da Previdência, atingiu aposentados e quem está prestes a se aposentar, tornando essa parcela do eleitorado hostil a ele. Pela mesma razão, atraiu o apoio de muitos jovens, que veem nas reformas uma garantia de que, quando chegar a vez de se aposentarem, haverá dinheiro para pagar seus benefícios.

"Obama fez mudanças importantes no seguro de saúde", disse Ángel Alcina, de 26 anos, nascido em Porto Rico e cozinheiro de um restaurante em Tampa. "Romney é para os que já estão aposentados e para os ricos. Obama garante a aposentadoria dos jovens."

A nova lei sobre o serviço de saúde, batizada de Obamacare, obriga todos os americanos a pagar um plano, seja privado ou público. Trinta milhões de americanos não tinham seguro de saúde e, quando ficavam doentes, tinham o tratamento bancado pelo Estado. Obama e os democratas argumentaram que esses gastos são injustos para com a maioria dos contribuintes, que já pagam por seus planos de saúde.

Os republicanos reagiram a essa proposta como algo "ditatorial". O Tea Party, um grupo conservador, difundiu a analogia segundo a qual era como se a primeira-dama, Michele Obama, forçasse todos a comer brócolis. A maioria democrata aprovou a lei no Congresso. A briga foi parar na Suprema Corte, que decidiu que ela é constitucional.

O Obamacare valeu ao presidente o rótulo - amplamente pejorativo, nos EUA - de "socialista". Romney promete anular a lei, se eleito. A dona de casa Dorme Kalb, de 49 anos, cujo marido é paisagista na rica Summerlin, em Nevada, associa o Obamacare à obrigação de frequentar o serviço público de saúde. "Prefiro cuidar disso eu mesma. Não quero esperar três meses por uma consulta, voltar lá e me dizerem aonde eu devo ir."

No outro extremo ideológico, Bruce Davis, de 65 anos, economista aposentado em Madison, Wisconsin, gostaria que Obama tivesse ido mais longe ainda. "Se ele queria fazer a reforma da saúde, devia ter criado um sistema público único, em vez de fazer concessões aos convênios privados", disse Davis. "Mas é um bom começo. Não tínhamos muita coisa antes. Gostaria de um sistema como o do Canadá e o da Grã-Bretanha."

Essa referência de países desenvolvidos - e igualmente "capitalistas" - que possuem um sistema público de saúde universal é constantemente citada pelos partidários do Obamacare. "Gostaria de um sistema público como o do Canadá", diz Grabiel Ruiz, de 31 anos, desenvolvedor de videogames em Madison e filho de mexicana. "Não acho que seja errado pedirmos isso. Não discordo de as pessoas quererem ganhar dinheiro. Mas damos ajuda para quem precisa de comida. Saúde também é uma necessidade."

Dois casais que foram assistir o pôr do sol em um domingo no Lago Mendota, em Madison, têm olhares perfeitamente opostos sobre o tema. "Antes, as pequenas empresas pagavam metade do plano de saúde de seus funcionários", observou a garçonete Collen Shafer, de 56 anos. "Com a reforma, terão de pagar tudo. Isso afetará todas as pequenas empresas. Um restaurante como o que eu trabalho, com oito funcionários, não poderá arcar com o seguro saúde", disse Collen, expondo um dos motivos pelos quais ela e seu marido Bruce, um segurança de 63 anos, votarão em Romney.

"Um dos entraves para a abertura de pequenas empresas é a falta de um sistema público de saúde", contra-argumentou Steven Goodman, de 57 anos, dono de uma empresa fornecedora de microscópios para laboratórios. "As pessoas relutam em sair de seus empregos para criar a própria empresa porque ficarão sem cobertura."

Sua mulher, Bobbi Tennenbaum, de 52 anos, que trabalha numa empresa especializada em eficiência energética, completou: "No nosso caso, o meu seguro de saúde cobre Steven." Bobbi disse que a porcentagem paga pelas empresas varia. No caso dela, é 100%. "São muito generosos." Segundo eles, se tivessem de pagar por um seguro equivalente, custaria US$ 1.300. / L.S.

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