Tea Party cresce em reduto democrata

Em Delaware, ultraconservadora que rejeita a Teoria da Evolução conquista vaga republicana e cativa eleitor decepcionado com a crise

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

De obscura perdedora de dois pleitos em Delaware, Christine O"Donnell, candidata republicana ao Senado, tornou-se o grande fenômeno das eleições legislativas do dia 2 nos EUA. Com US$ 4 milhões doados pelo Tea Party, facção de extrema direita do Partido Republicano, e mais US$ 500 mil coletados de simpatizantes locais, ela despertou a atenção nacional para a disputa em um Estado menor do que a Grande São Paulo e reduto tradicional do Partido Democrata.

Aos 41 anos, especialista em marketing, solteira, de família ítalo-irlandesa e natural do Estado vizinho de New Jersey, Christine deu um salto político ao vencer o ex-governador e veterano político Mike Castle nas primárias republicanas de setembro.

Desde então, mais que concorrente do candidato do Partido Democrata ao Senado, Chris Coons, converteu-se em um dos rostos mais destacados entre os polêmicos membros do movimento Tea Party.

O currículo de Christine desafia sua carreira política e sua popularidade em Delaware. Católica, ela assumiu recentemente frequentar cultos evangélicos. Tal sincretismo pode não parecer estranho no Brasil, mas, entre os americanos, é tão inaceitável quanto, em São Paulo, um palmeirense declarar que vai ao Pacaembu torcer pelo Corinthians.

Nos primeiros anos de vida adulta, Christine tornou-se líder de campanhas contra a masturbação e em favor da castidade. Para ela, ainda hoje, o homossexualismo é um "distúrbio de identidade" e o aborto deve ser proibido, mesmo em casos de estupro e incesto. De acordo com ela, a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, é um "mito" e o Departamento de Educação (ministério, nos EUA) deveria ser extinto.

Identificação. As convicções da candidata encontram um eleitorado ansioso por essa mensagem. Com placas contra o aborto nas mãos, Rae Stabosz, analista de sistema aposentada, espera ver Christine no Senado, apesar de não se identificar com o Tea Party. "Não vou votar no Partido Democrata enquanto ele não tiver uma posição clara contra o aborto. Barack Obama é o presidente mais favorável ao aborto da história americana", defendeu.

O histórico de Christine traz ainda uma porção de contas penduradas. Foi processada, em 1994, pela Universidade Fairleigh Dickinson por uma dívida de US$ 4.823. Em 2008, perdeu a casa onde morava por não pagar US$ 90 mil em parcelas do financiamento. Alugou outra, em Wilmington, para funcionar como moradia e comitê eleitoral, valendo-se de fundos de campanha para abater metade da conta.

Hoje, mantém um quartel-general praticamente vazio, montado em um edifício de alto padrão em Silverside Road, de onde 30 funcionários tentam atrair voluntários e eleitores. "Cometi erros. Quando passei momentos difíceis, fiz sacrifícios e trabalhei duro para chegar nesta posição", afirmou a republicana na quarta-feira.

A Comissão Federal Eleitoral (FEC, na sigla em inglês), uma espécie de tribunal, citou Christine oito vezes, entre 2007 e 2009, por atraso na entrega dos relatórios sobre doações de suas duas campanhas anteriores. Este ano, a receita federal dos EUA cobrou dela US$ 11 mil por falhas nas suas declarações de imposto de renda.

"Foi um erro de computador", esclareceu. No mês passado, a organização Cidadãos para a Responsabilidade e a Ética em Washington acusou-a no FEC por apropriação indevida de US$ 20 mil do caixa de campanha.

De acordo com a média das pesquisas eleitorais, calculada pelo site Real Clear Politics, o democrata Coons tem uma vantagem confortável, com 54,6% das intenções de voto. Christine vem bem atrás, com 37 % e um caixa de campanha quatro vezes maior do que o de seu adversário.

Debates ingratos. Até a eleição, o jogo pode mudar. Nos dois debates eleitorais da última semana, em Wilmington, maior cidade de Delaware, Coons deixou a candidata do Tea Party enforcar-se com a própria corda diante da plateia de universitários e empresários. Para ela, entretanto, os eventos foram o seu momento da "virada".

Nos confrontos na Universidade de Delaware, dia 13, e diante dos membros do Rotary Club, dia 14, Christine acusou seu oponente de ter sido um "viciado em aumento de impostos" e um "delinquente" quando foi prefeito de New Castle.

Ela se concentrou ainda nas teses do Tea Party em favor do Estado mínimo e da redução da carga tributária. No entanto, quando questionada sobre como diminuir o déficit público de US$ 1,4 trilhão do país, sugeriu "corte de desperdícios, gastos discricionários e combate a fraudes e abusos". Na maioria das suas intervenções, apresentou ideias cozidas e repetidas pelos líderes do movimento Tea Party.

Erro. "Ela é como um desses aviões não tripulados que bombardeiam o Afeganistão", afirmou Ralph Begleiter, diretor do Centro de Comunicação Política da Universidade de Delaware. No debate no Rotary Club, no hotel mais refinado de Wilmington, ela criticou a decisão do presidente Barack Obama de retirar as tropas do Afeganistão em julho de 2011.

"Se vocês se lembrarem de quando combatemos os soviéticos no Afeganistão, nos anos 80 e 90, chegarão à conclusão de que não terminamos nosso trabalho lá", afirmou, sem dar-se conta do erro - foram os soviéticos que combateram os militantes islâmicos.

Christine também reiterou sua convicção de que a China pretende lançar um ataque militar contra os EUA e defendeu a aplicação de sanções contra empresas desse país. "Christine é uma atriz. Ela fala sem conhecer a complexidade dos temas", disse Joan Del Fattore, professora universitária e membro do Rotary.

"Deu um branco". O melhor momento do debate de quarta-feira ocorreu quando a mediadora perguntou à candidata do Tea Party quais as decisões recentes da Suprema Corte que a frustraram. "Puxa vida! Dê-me um caso específico. Desculpe-me, deu branco. Eu sei que há muitos, mas vou colocá-los no meu site, eu prometo", declarou.

Depois, acabou por se lembrar de um caso polêmico: o fim da permissão para que as Forças Armadas expulsem homossexuais assumidos. "Essa é uma decisão que compete ao comando militar, não à Suprema Corte", afirmou.

Assim como sua madrinha, Sarah Palin - ex-governadora do Alasca, candidata republicana à vice-presidência na chapa de John McCain, em 2008, e principal líder do Tea Party -, Christine e seu discurso repleto de chavões são o resultado da onda de frustração dos americanos.

A taxa de desemprego média de 9,6%, a lenta recuperação econômica e as medidas do governo Obama, consideradas por muitos americanos como "intervencionistas" e "socialistas", serviram de munição eleitoral. Frequentemente, analistas e eleitores resumem esse sentimento como "raiva".

"Eu tenho de cuidar de mim mesma. Não quero o governo dizendo o que tenho de fazer. Isso é socialismo", afirmou a terapeuta ocupacional Stacy Walsh, que torcia por Christine no debate na Universidade de Delaware. Stacy foi eleitora do Partido Democrata até 1997, quando perdeu um emprego público. Tornou-se republicana e, desde o ano passado, segue o Tea Party no Estado de Delaware.

Conservadora autêntica. Segundo Julio Carrión, cientista político da Universidade de Delaware, os eleitores de Christine a veem como uma "republicana de verdade", ou seja, como uma conservadora autêntica.

Eles não se incomodam com o fato de sua campanha ser financiada por organizações como o Tea Party e por políticos de outros Estados. Provavelmente, na avaliação de Carrión, ela perderá a eleição. No entanto, já se tornou uma celebridade na política. "Facilmente conseguirá o emprego de comentarista na FoxNews", afirmou Ralph Begleiter, em referência ao canal de TV mais identificado com o Tea Party.

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