Teatro cerca confrontos na Líbia

Há relatos de caixões enterrados sem corpos e de cidadãos que participam de protestos pró e anti-Kadafi

, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Mais de 30 caixões foram levados ao Cemitério dos Mártires na quinta-feira, escoltados por centenas de partidários de Muamar Kadafi, agitando bandeiras, condenando aos brados o que a mídia estatal diz serem "as vítimas civis dos ataques aéreos americanos e europeus". Mas, após duas horas de alarido, com aclamações a Kadafi e contra o Ocidente, e pouca dor pelo que a TV estatal chama de "vítimas da agressão colonialista", muitos dos caixões foram deixados de lado. Somente alguns foram enterrados. Dois fotógrafos ocidentais disseram que alguns exalavam um odor de corpos mortos há dias. Não houve maneira de saber quem ou o que havia nos outros - ou o que se passava na mente daquelas pessoas que estavam ali para consolar.

Quatro décadas de penas implacáveis para dissidentes políticos - e grandes recompensas pela lealdade a Kadafi - transformaram a vida pública líbia numa espécie de teatro elaborado, onde uma cortina pesada se coloca entre a expressão pública e a opinião privada. E essa cortina transformou o conflito entre Kadafi e os rebeldes que tentam derrubá-lo em um grande enigma, no qual é difícil dizer quem está interpretando que papel - desde os parceiros próximos do coronel até as multidões que protestam nas ruas.

Nos comícios pró-Kadafi, no centro de Trípoli e no complexo pertencente ao coronel, jornalistas ocidentais encontraram pelo menos três líbios que anteriormente tinham participado dos protestos ou fizeram declarações contra o governo de Kadafi.

Um deles, que participou de uma manifestação contra Kadafi, no distrito de Tajura, apresentou-se dois dias depois para um fotógrafo do New York Times no meio da praça. "Triste", ele falou sobre os eventos na Líbia, sem especificar se estava se referindo aos protestos ou à repressão.

Uma certa camuflagem política faz parte do negócio. Delphine Minoui, correspondente do jornal francês Le Figaro, reportou que visitou um salão de cabeleireiro cuja proprietária às vezes elogiava, outras criticava Kadafi - dependendo do cliente. Depois se apresentou como escudo humano voluntariamente no complexo residencial de Kadafi.

Alguns mistérios existem até mesmo na família Kadafi. Uma semana após o início das rebeliões, por exemplo, a agência oficial egípcia de notícias informou que Ahmed Kadafi al-Dam, primo e assessor de Kadafi, fugira para o Egito e renunciara a sua posição. "Foi mentira", disse um líder rebelde, no Cairo. "Ele está muito ativo apoiando Kadafi no Cairo e na região." / NYT

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