Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Teatro macabro

A ignóbil cena foi exibida repetidas vezes, não somente nas redes sociais, mas também no cérebro de todo indivíduo mais ou menos normal: um jovem barbudo segura um prisioneiro com uma mão e com a outra retira uma longa faca de uma caixa e degola lentamente um dos 18 homens condenados à morte pelo Estado Islâmico (EI).

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2014 | 02h01

Uma cena particularmente odiosa para os franceses, porque um dos carrascos é francês: o jovem com uma boina preta e cuja barba e longos cabelos balançam no vento do deserto.

O mais espantoso é que esse francês assassino não é um árabe nascido na França, mas um francês da gema, Maxime Hauchard, nascido na Normandia. Há dois anos, ainda era um rapaz comum, cristão, "gentil e sem história". Pois bem, esse jovem agradável, sensível, terno, continha dentro de si, bem camuflado, um carrasco, um bárbaro.

Para a polícia francesa ele não é o único. Havia um segundo francês entre os assassinos. A Grã-Bretanha também acredita que um dos degoladores era britânico. Certamente, existe da parte do EI a vontade de confiar essas tarefas infames a europeus.

Então, o que significa essa execução feita de forma tão minuciosa como uma cerimonia religiosa? Ela se endereça tanto às populações do Oriente Médio como às da Europa. E a mensagem é essa: "Vejam, os soldados da Jihad, os soldados do Daesh (sigla do EI em árabe) não são somente árabes. São homens que vêm dos quatro cantos do mundo. Nas nossas tropas temos centenas de Jihadi John, centenas de Maxime Hauchard".

A mensagem se decompõe em dois avisos: o primeiro é que o EI não tem nenhum problema de recrutamento, pois atrai combatentes não apenas entre os habitantes da região, mas no mundo inteiro, e quantos quiser.

Segunda lição: "Esses estrangeiros que se juntam à luta são cristãos que se converteram à 'verdadeira religião', que trocaram seu 'falso Deus' pelo nosso 'verdadeiro Deus'. É a prova de que nossa causa não só é justa, mas também é aprovada e apoiada por Deus".

Esse destaque dado aos jihadistas nascidos cristãos que se tornaram tão fanáticos e cruéis quanto os outros tem por fim afirmar a identidade do EI e proclamar que essa identidade transborda e modifica completamente as categorias que gerem ordinariamente as nações: a geografia, a língua, as fronteiras. Todas são dizimadas sob o olhar do EI.

A vontade de remanejar as categorias da história já faz parte da própria origem do EI. Ele não pretende construir um Estado no sentido habitual do termo, mas um Califado, ou seja, uma forma de governo que existiu outrora e despareceu há mais de mil anos. O Califado visa a retomar o movimento histórico no momento em que ele foi arrancado do Islã por ter sido "desvirtuado" pelo Ocidente. Trata-se de reinventar a História e, portanto, renovar todos os atributos que acompanham a História no Ocidente: califado no lugar do Estado-nação, espaço político transfronteiriço e não cercado por fronteiras, população vinda do mundo inteiro e reunindo todas as origens, línguas e religiões, desde que se trate da única religião, do único verdadeiro Deus, o do Islã. Eis o que podemos concluir da leitura da "teologia da morte", cujo espetáculo macabro o EI acaba de encenar nos seus desertos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É correspondente de Paris

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.