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Técnica da realeza europeia para compartilhar segredos é considerada precursora da criptografia

Pesquisa ressalta o uso da técnica de letterlocking pelas rainhas Elizabeth, Catarina de Médici e Maria da Escócia

William J. Broad / The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2022 | 05h00

Para proteger as correspondências reais mais importantes contra bisbilhoteiros e espiões no século 16, os escribas empregavam um complicado método de segurança. Eles dobravam as cartas e posteriormente usavam um retalho para costurar e unir as faces da carta dobrada, transformando o próprio papel da carta em seu envelope. Para ler seu conteúdo, um espião teria de rasgar o selo, algo impossível de passar despercebido.

Catarina de Médici usou o método em 1570 – no período em que governou a França enquanto seu filho doente, o rei Carlos IX, ocupava o trono. A rainha Elizabeth usou em 1573, enquanto governante soberana da Inglaterra e da Irlanda. E Maria da Escócia usou em 1587, horas antes de seu longo esforço de unir os britânicos ser encerrado com sua decapitação.

“Essas pessoas conheciam diversas maneiras de enviar uma carta e escolheram esse método”, afirmou Jana Dambrogio, principal autora de um estudo que detalha o uso que os políticos da Renascença faziam da técnica e uma das administradoras das bibliotecas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). “É fascinante. Eles passavam por grandes dificuldades para aumentar a segurança.”

A revelação de que esse método era amplamente usado entre a realeza europeia é a mais recente empreitada de um grupo de estudiosos centrados no MIT a respeito da arte esquecida que eles chamam de letterlocking – uma forma ancestral de segurança nas comunicações que eles estão tendo trabalho para ressuscitar. No início do ano passado, eles relataram o desenvolvimento de uma técnica de realidade virtual que os permite perscrutar as cartas costuradas sem rasgá-las nem prejudicar o registro histórico. 

Agora, num detalhado artigo publicado mês passado no Electronic British Library Journal, os estudiosos expuseram seu universo em expansão de descobertas e questionamentos. Eles revelam casos de espirais de letterlocking em cartas de rainhas e postulam que o método “se disseminou pelas cortes europeias por meio das correspondências da realeza”.

Apesar do uso de cartas costuradas ter desaparecido nos anos 1830 com o surgimento dos envelopes produzidos em massa, o método agora é considerado um precursor fascinante da criptografia atualmente usada em todo o mundo nas comunicações eletrônicas.

Em seu recente artigo, os autores usam estudos de caso de cartas costuradas juntamente com ilustrações gráficas e descrições detalhadas do processo para revelar o que eles aprenderam em duas décadas de estudo. O principal objetivo do artigo é ajudar outros estudiosos a identificar quando a técnica foi usada em cartas históricas que já foram abertas, espalmadas e, com frequência, restauradas de maneiras que deixam poucos indícios de seus estados originais.

Os autores afirmam que coleções de bibliotecas e arquivos frequentemente contêm exemplos de letterlocking ocultos ao olhar comum, apesar de evidentes. O conhecimento sobre técnica, acrescentam eles, pode ser usado para recuperar nuances de comunicações pessoais que, até agora, estavam perdidas na história.

Os nove autores do novo artigo incluem, além de Dambrogio, estudantes do MIT e acadêmicos da King’s College London, da Universidade de Glasgow e da British Library. A British Library organiza atualmente uma exposição que exibe algumas cartas descosturadas.

Reencenação

Um dos principais estudos de caso no novo artigo é uma carta escrita em 1570 por Catarina de Médici, que, como rainha-consorte, rainha-mãe e regente desempenhou funções proeminentes na vida política da França. Os estudiosos descobriram a correspondência à venda na internet, e o MIT a comprou. Catarina escreveu sua carta para Raimond de Beccarie, um militar, político e diplomata francês. Um vídeo do MIT mostra uma reencenação da maneira como Catarina e seus assistentes dobraram e costuraram a carta.

No artigo, os autores descrevem o procedimento em considerável detalhe, porque a carta sobreviveu com até 99% do complicado mecanismo de costura inteiro, o que permitiu uma minuciosa reconstituição de cada passo do procedimento. Eles também analisam um selo de papel sobre a costura que revela claras impressões do brasão de armas de Catarina.

Em seu tour à realeza, os estudiosos examinam uma carta que a rainha Elizabeth escreveu em 1573 ao homem que pouco depois assumiu o trono francês como Henrique III. Eles afirmam que isso ilustra como o letterlocking era usado nos mais altos níveis das negociações diplomáticas na Europa.

Eles também examinam duas cartas costuradas enviadas por Maria da Escócia, incluindo uma que ela escreveu em 1587, pouco antes de ser decapitada. Alison Wiggins, acadêmica da Universidade de Glasgow e coautora do estudo, argumenta que o uso repetido do letterlocking por Maria conferia às suas correspondências não apenas segurança, mas também um tipo de prestígio. O efeito combinado entre a costura, sua escrita de próprio punho e sua assinatura, afirmou Wiggins, permitiu a Maria “constituir laços de afinidade e proximidade – e garantias de autenticidade”.

Dambrogio afirmou que, ainda que o novo artigo tenha mulheres como foco, homens também utilizavam a técnica. “Ainda estamos no estágio de coleta de informações”, afirmou Dambrogio. 

Serão necessários ainda anos de estudos, afirmou ela, para desenvolver um quadro social abrangente da utilização desse método./ TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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