Técnicas de interrogatório da CIA são tortura, diz Pelosi

Presidente da Câmara afirma que violação da lei prejudica os próprios EUA

Patricia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

09 de outubro de 2007 | 00h00

A presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, afirmou que as técnicas de interrogatório usadas por agentes da CIA podem, sim, ser classificadas como tortura. Em entrevista ao programa de TV Fox News Sunday, no domingo, a deputada democrata criticou táticas como tapas na cabeça, simulação de afogamento e submissão de prisioneiros a temperaturas extremas. "Há uma definição legal de tortura e eu acho que essas técnicas se encaixam nela", disse Pelosi. "O presidente diz que não."Na sexta-feira, o presidente George W. Bush negou que essas ações configurem tratamento desumano, afirmando que "os Estados Unidos não torturam prisioneiros". Ele disse ainda que o Congresso sempre foi mantido totalmente a par das "políticas de detenção".Bush falou com jornalistas em resposta a uma reportagem publicada quinta-feira no New York Times. O jornal divulgou a existência de documentos do Departamento de Justiça que autorizavam, desde 2005, o uso de técnicas violentas para interrogar suspeitos de envolvimento em complôs terroristas. Integrantes do governo confirmaram a existência dos documentos, mas se recusam a divulgá-los, afirmando tratar-se de técnicas duras, seguras, necessárias e dentro da lei. Na entrevista à TV Fox News, Pelosi contradisse mais uma vez o presidente Bush, ao afirmar que nunca recebeu informações sobre esses documentos. Dentro do Congresso americano, cresce a pressão pela divulgação dos memorandos secretos. O senador democrata Carl Levin mandou uma carta a Michael Mukasey, indicado para substituir Alberto Gonzales como secretário de Justiça, perguntando se, caso seja confirmado no posto, ele fornecerá os memorandos aos congressistas. Na entrevista de sexta-feira, Bush afirmou que adotou o programa de interrogatórios da CIA "para proteger o povo americano", acrescentando: "E quando nós acharmos alguém que possa ter informações sobre um possível ataque contra os Estados Unidos, você pode apostar que iremos prender e interrogar essa pessoa. Esse é nosso trabalho." O presidente, no entanto, não confirmou a existência dos documentos secretos.Já Pelosi ressaltou a importância de manter as detenções dos prisioneiros e os interrogatórios dentro da legalidade. "Eu acho que proteger o povo americano deve ser nossa maior prioridade, mas devemos fazer isso de uma maneira que esteja dentro da lei, e especialistas concordam que não são obtidas informações confiáveis usando esse tipo de tática", afirmou a presidente da Câmara. Além disso, essas táticas "prejudicam a reputação dos Estados Unidos no mundo, o que atrapalha a cooperação internacional de que precisamos para coletar informações", acrescentou.

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