Kevin Coombs/ Reuters
Kevin Coombs/ Reuters

Tecnologia pode frear uso de veículos como armas por terroristas

Parte dos atentados poderia ser evitada com o sistema de frenagem automática, que freia um veículo antes que atropele um pedestre

O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2017 | 05h00

“Já chega”, disse a primeira-ministra britânica, Theresa May, após o atentado terrorista de sábado em Londres. Mas o que ela propôs para conter ataques foi, essencialmente, uma certa restrição à liberdade de expressão, mais poderes para a polícia e condenações mais longas para crimes relacionados a terrorismo – o mesmo arsenal usado há quase duas décadas. O problema com as ferramentas tradicionais não é que sejam ineficazes – é que já vêm sendo usadas na capacidade máxima.

Governos têm de reagir menos genericamente às formas que o terror vem assumindo. Dos três ataques no Reino Unido neste ano, dois começaram com tentativas de matar pessoas com veículos. Essa é uma prática terrorista cada vez mais usada, que teve sangrentos resultados em Nice e Berlim.

Pelo menos essa parte dos atentados poderia ter sido evitada, ou reduzida, com a moderna tecnologia conhecida como sistema de frenagem automática (AEB, na sigla em inglês). É uma tecnologia destinada a salvar vidas que já se mostrou capaz de reduzir colisões de marcha à ré e, nas formas mais modernas, freia um veículo antes que ele atropele um pedestre.

O caminhão usado em Berlim por Anis Amri estava equipado com um dispositivo AEB. O recurso impediu um número ainda maior de mortes. O motivo pelo qual o sistema não deteve antes o caminhão é que o motorista pode ignorar o alerta inicial, neutralizando o sistema por um curto espaço de tempo. Em tal cenário, os freios são acionados de forma autônoma somente após a primeira colisão.

A regulamentação europeia exige que todos os veículos novos venham equipados com o AEB desde 2015. O motorista, porém, pode desativá-lo. Os órgãos reguladores podem dificultar a vida de terroristas que planejam fazer do carro uma arma se estabelecerem que o sistema não possa ser desativado manualmente quando uma colisão com um ser humano seja iminente. 

É óbvio que os terroristas terão ainda uma grande oferta de veículos mais velhos. O carro médio nas estradas europeias tem quase dez anos. Tirá-los antecipadamente de circulação seria uma medida fortemente impopular, mas ainda assim poderia vir a ser proposta, especialmente se a troca de veículos velhos por novos fosse subsidiada, como ocorreu em vários países durante a crise financeira mundial. Reduzir as opções fáceis para terroristas não é irrelevante.

A alternativa de baixa tecnologia – utilizada na Turquia e em Israel, onde carros transformados em armas tornaram-se realidade antes – é instalar obstáculos nas partes das cidades em que seja mais provável um ataque terrorista ou o número de vítimas possa ser grande. Isso vem sendo feito em pontos turísticos de Londres. Berlim encomendou barreiras a Israel após o ataque de dezembro. Mas há limites para essa estratégia em áreas públicas de muitas velhas cidades europeias.

Países com leis mais estritas de proibição de armas sofrem menos violência armada. Nesses países, os candidatos a terroristas buscam alternativas. Regulamentações mais rígidas sobre segurança de carros poderiam reduzir o número de mortes. Isso não exclui a necessidade de se atacar problemas mais complexos, como a ineficaz integração dos imigrantes, ou a assustadora eficiência da propaganda terrorista. Mas, quando se fala em segurança, tratar sintomas é uma resposta inteligente e imediata. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MAZZUCCO MUNIZ

É COLUNISTA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.