Teerã apresenta ''oferta de diálogo'' a potências

Entregue dias antes da data limite imposta por Obama, proposta não deve alterar posição do Irã, dizem analistas

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2009 | 00h00

Um dia após lançar a maior ofensiva para sufocar a oposição desde os distúrbios que sucederam às eleições presidenciais, em 12 de junho, o governo do Irã apresentou ontem um pacote de propostas para supostamente retomar o diálogo sobre seu programa nuclear com a comunidade internacional. O chanceler iraniano, Manouchehr Mottaki, entregou em Teerã a oferta a diplomatas do chamado "sexteto", formado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e Alemanha.

A nova proposta iraniana - cujo conteúdo não foi revelado - emerge pouco antes do prazo final determinado pelo governo de Barack Obama, que exigiu uma resposta de Teerã à sua oferta de "diálogo direto" até o fim do mês. O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ian Kelly, confirmou ter recebido o texto e disse que o documento está "sob análise". A resposta, disse Kelly, deve sair "em dois dias".

O Irã afirma que o pacote de propostas aborda "assuntos globais" e representa "uma nova oportunidade de cooperação".

No entanto, com base nos últimos discursos do presidente Mahmoud Ahmadinejad e do principal negociador nuclear iraniano, Saeed Jalili, o regime dos aiatolás não deverá fazer grandes concessões, diz Alex Vatanka, especialista sênior da consultoria Jane"s. "A retórica hostil e desafiadora não mudou", declarou ao Estado.

Mas Teerã tampouco deverá subir o tom com a comunidade internacional. "O governo não pode lutar ao mesmo tempo no front externo e interno", afirma o especialista, referindo-se à pressão internacional e à onda de prisões de opositores.

Outro motivo que inibe a radicalização é o temor real de uma nova série de sanções do Conselho de Segurança, que agora envolveria um embargo à importação de combustível. A medida mutilaria a economia iraniana. "O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, sabe que a única coisa capaz de derrubar o regime é a economia e não deixará Ahmadinejad ir tão longe", diz Vatanka.

A aprovação de novas sanções contra o Irã, entretanto, permanece uma possibilidade remota. Charles Ferguson, analista do Council on Foreign Relations, disse ao Estado que os sinais dados por China e Rússia vão no sentido oposto: evitar isolar economicamente Teerã.

Ferguson ainda levanta dúvidas sobre a própria eficiência de novas sanções. Um embargo castigaria, principalmente, a população civil e poderia ser instrumentalizado pelos aiatolás para unir o povo contra o espectro de um inimigo externo.

A intransigência iraniana somada à ineficiência de sanções colocariam os EUA e seus aliados em situação delicada. Ontem, o embaixador americano na Agência de Energia Atômica (AIEA), Glyn Davies, disse que o Irã já tem recursos para construir uma bomba nuclear. A informação, porém, não foi confirmada pela AIEA. Restaria aos EUA, diz Ferguson, uma estratégia de contenção do Irã - política usada contra a URSS durante a Guerra Fria. "Washington está de mãos atadas."

COM AP

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