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Teerã reprime protesto de opositores que deixa 1 morto e dezenas de presos

TEERÃ

, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2011 | 00h00

Dezenas de milhares de manifestantes entraram ontem em confronto com policiais em duas regiões do centro de Teerã. Pelo menos uma pessoa morreu, segundo informou a agência de notícias semioficial Fars, que atribuiu o disparo causador da morte à oposição. A Fars não deu mais detalhes sobre o incidente.

A marcha tinha sido inicialmente convocada pelo próprio governo em solidariedade à "revolução no Cairo", mas acabou proibida por temores de que se convertesse em um ato antirregime. Segundo líderes reformistas, "dezenas" foram presos. Os protestos foram os maiores no Irã em mais de um ano. Além da capital, milhares de opositores também saíram às ruas em Isfahan, a terceira maior cidade do país. Forças antidistúrbio dispersaram os opositores na capital com gás lacrimogêneo e manifestantes responderam queimando lixo.

Temendo cenas semelhantes ao levante que sucedeu à reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, em junho de 2009, o regime iraniano antecipou-se aos protestos. Pela manhã, milhares de policiais com equipamento antidistúrbio e milicianos em motocicletas já se posicionavam em pontos do centro de Teerã.

Estações de metrô foram fechadas e os dois principais líderes do chamado "movimento verde", os candidatos derrotados Mir Hussein Mousavi e Mehdi Karroubi, colocados em prisão domiciliar. Celulares no centro de Teerã ficaram sem sinal.

"Testemunhas afirmam que, em algumas partes de Teerã, dezenas de manifestantes foram presos", anunciou Mousavi no site opositor Kaleme. A mulher do líder reformista, Zahra Rahnavard, também foi posta em prisão domiciliar. Mousavi e Karroubi aproveitaram-se de protestos convocados pelo regime em solidariedade às revoluções na Tunísia e Egito, e exortaram seus partidários a irem às ruas. Ao se dar conta da brecha aberta involuntariamente, o regime de Teerã voltou atrás e proibiu as manifestações.

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, saudou a derrubada do presidente Hosni Mubarak como um "despertar islâmico", semelhante à Revolução Iraniana de 1979. Mas, para opositores iranianos, a guinada egípcia contra o autoritarismo tem os mesmos princípios que os distúrbios de junho de 2009 contra Ahmadinejad e a velha guarda do regime dos aiatolás.

Ancara. A onda de protestos no Irã foi brutalmente reprimida por forças leais ao regime, sobretudo a Guarda Revolucionária. Em dezembro de 2009, opositores voltaram às ruas e oito manifestantes acabaram mortos.

As novas manifestações ocorreram enquanto o presidente da Turquia, Abdullah Gul, visitava Teerã. "Nós vemos que, muitas vezes, quando líderes e chefes de países não estão atentos às demandas da nação, o próprio povo age para alcançar seus objetivos", disse Gul, sem citar o caso iraniano, ao lado de Ahmadinejad. / REUTERS

PARA LEMBRAR

Em junho de 2009 o Irã viveu seus maiores distúrbios desde a revolução de 1979. O estopim da rebelião foi a suposta fraude eleitoral que deu a reeleição ao ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad. Manifestantes que ficaram conhecidos como "movimento verde" foram violentamente reprimidos e levados aos porões do aparato de segurança. Segundo analistas, os protestos causaram ainda um "desequilíbrio" na estrutura da República Islâmica: o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, rompeu seu papel de fiador apartidário do sistema e tomou partido de Ahmadinejad na luta entre facções.

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