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Gideon Markowicz/AFP
Gideon Markowicz/AFP

Tel-Aviv, a cidade em Israel símbolo de liberdade e convivência é abalada pelo conflito com o Hamas

Metrópole foi alvo de pelo menos 160 foguetes disparados da Faixa de Gaza

Isabel Kershner, The New York Times, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 05h00

TEL AVIV  - A prefeitura de Tel-Aviv lançou uma divertida campanha nas redes sociais este mês, declarando-se uma cidade vacinada ansiosa para receber de volta os viajantes internacionais em suas primeiras idas ao exterior pós-coronavírus.

Isso foi antes de os foguetes começarem a atacar.

Durante a semana de combates entre Israel e grupos militantes da Faixa de Gaza, Tel-Aviv foi alvo de pelo menos 160 foguetes disparados do enclave palestino, cerca de 60 km ao sul.

O bombardeio de Tel -Aviv foi uma reviravolta devastadora para uma metrópole agitada que se autodenomina a cidade mais festiva de Israel e o centro financeiro do país. Durante o fim de semana, sirenes de alerta e disparos de foguetes obrigaram multidões de banhistas a correr para se proteger e fecharam muitos dos restaurantes e bares famosos da cidade.

Tel-Aviv chegou a ser alvo de disparos de foguetes nas rodadas anteriores do confronto, mas não com a intensidade dos últimos dias. E embora os militares digam que o Domo de Ferro, sistema de defesa antimísseis, intercepta cerca de 90% dos foguetes que se dirigem a áreas povoadas, alguns deles escapam.

Shahar Elal, de 30 anos, veio de Zurique para Israel, onde nasceu, para visitar a família. No sábado, ela e a mãe precisaram correr para se abrigar atrás da cozinha de um café à beira-mar.“Cerveja na mão, protetor solar no rosto, nós duas corremos”, disse ela, deixando cair uma carteira ao longo do caminho. Quando saíram do abrigo, viram o rastro de fumaça branca de um foguete que havia caído no mar à sua frente.

Certo dia na semana passada, durante o horário comercial, militantes dispararam cerca de 100 foguetes na direção de Tel-Aviv e seus arredores, dizendo que estavam retaliando os ataques aéreos israelenses contra o que eles descreveram como edifícios civis.

O disparo dos foguetes mandou cerca de 1 milhão de israelenses para abrigos antiaéreos e espaços protegidos. No sábado, Gershon Franko, de 55 anos, foi morto por estilhaços depois que um foguete atingiu o meio da rua em frente a seu apartamento em Ramat Gan, um frondoso subúrbio de Tel-Aviv.

Muitas vezes chamada de o “Estado de Tel-Aviv”, a cidade bastante liberal e secular à beira-mar fica um tanto distante dos perigos das partes mais periféricas do país. Muitos residentes da cidade de skates, pranchas de surf e scooters elétricos vivem numa bolha hedonística.

“É um tipo de fuga”, disse Sagi Assaraf, 31 anos, engenheiro médico, explicando o estado de espírito de Tel-Aviv, na praia com uma cerveja e alguns amigos no domingo, um dia depois que todos tiveram de fugir da mesma extensão de areia à procura de abrigo.“No final, são pessoas que só querem viver em paz e tranquilidade”, disse ele, acrescentando: “As explosões mexeram com todo mundo”.

Ele e seu amigo Ben Levy, 32 anos, designer gráfico que dedilhava um violão, cumpriram o serviço militar obrigatório em unidades de combate e disseram que não se incomodavam com os foguetes.

O General Uri Gordin, chefe do Comando do Front Doméstico, disse acreditar que mais foguetes foram disparados na área de Tel-Aviv na noite de sábado do que durante os cinquenta dias de guerra em Gaza no verão de 2014.

Muitos residentes falaram em termos otimistas sobre resiliência e desafio, dizendo que mostrar fraqueza e medo daria a vitória ao inimigo.

“Precisamos continuar otimistas e tocar nossa vida cotidiana”, disse Levy.

Mesmo em Ramat Gan, bairro onde caiu o foguete mortal, lojistas e moradores locais exibiam um sangue frio semelhante.

Menachem Horovitz, que é dono de um pequeno café na rua e mora na esquina, estava em casa quando ouviu a sirene seguida de um estrondo que sacudiu toda a sala. Ele saiu para inspecionar os danos à padaria. “A polícia veio”, disse ele com naturalidade. “Eu limpei e coloquei tudo de volta no lugar”.

Elal, a visitante de Zurique, hospedada com a família num aluguel de temporada à beira-mar, já estava de volta à praia no domingo.

“Não faz sentido parar nossas vidas”, disse ela. Mas acrescentou que nunca tinha visto as ruas e praias de Tel -Aviv tão tranquilas e vazias num fim de semana de férias. Ela disse que a maioria de seus amigos de infância que agora vivem em Tel-Aviv voltaram para a casa de seus pais no norte -- uma área que costumava sofrer mais com ataques de foguetes do Líbano.

Josh Corcos, de 30 anos, Shai Asraf, de 29 anos, e um amigo estavam no domingo no mesmo café da praia onde Elal havia se abrigado no dia anterior. Asraf viera de Netivot, cidade do sul que é alvo frequente de ataques com foguetes vindos de Gaza.

Quando as sirenes tocaram no sábado à tarde, eles estavam comendo torradas francesas com ovos num restaurante que servia café da manhã o dia todo. Eles se abrigaram, saíram 20 minutos depois e voltaram a comer, disseram.

Algumas pessoas entraram mais em pânico do que outras, disseram.

“Todos nós passamos pelo exército, então essas coisas não nos incomodam muito”, disse Corcos sobre os foguetes. “Mas, ainda assim, você não espera um bombardeio no meio do café da manhã em Tel-Aviv”.

Naquela noite, o Hamas enviou um alerta de que os residentes de Tel -Aviv deveriam estar de volta a suas casas à meia-noite. Os três homens voltaram ao apartamento alugado às 23h30 para esperar. Onze minutos depois da meia-noite, as sirenes soaram e mais salvas de foguetes se dirigiram para a cidade.

“Quatro dias atrás, a cidade estava normal, bombando”, disse Asraf. “Tudo mudou desde que os foguetes começaram a cair. A maioria das pessoas agora está ficando em casa”.

As autoridades municipais disseram estar confiantes de que o turismo se recuperará no tempo devido.

Mas, quando o sol começou a afundar no Mediterrâneo, as ruas de Tel-Aviv, geralmente repletas de turistas, ficaram assustadoramente desertas. A cidade que não para havia parado, pelo menos por um tempo. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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