Ilya Naymushin/Reuters
Ilya Naymushin/Reuters

Telegram, usado contra regimes autoritários, vira refúgio da extrema direita

O aplicativo ajudou a alimentar movimentos democráticos no Irã e na Bielo-Rússia, mas agora enfrenta escrutínio, à medida que extremistas e teóricos da conspiração aderem a ele

Michael Schwirtz, The New York Times

29 de janeiro de 2021 | 10h00

O Telegram vem sendo usado como um motor de resistência e um aborrecimento para os tiranos.  Líderes autoritários na Rússia e Irã tentaram bani-lo. 

Quando protestos começaram recentemente na Bielo-Rússia e em Hong Kong, a plataforma foi a cola que manteve os movimentos pela democracia unidos em face dos ataques de serviços de segurança. 

Nos últimos dias, no entanto, o aplicativo vem se tornando um refúgio online para um diferente tipo de resistência.

Teóricos da conspiração de extrema direita e racistas têm se aglomerado no Telegram nas últimas semanas, após o banimento de suas contas por parte das grandes companhias americanas de redes sociais. 

A medida ocorreu devido à invasão ao prédio do Capitólio, em Washington, por um grupo de apoiadores do ex-presidente Donald Trump. O próprio Trump teve suas contas pessoais banidas do Facebook e do Twitter.

Vinte e cinco milhões de novos usuários acessaram o Telegram nos dias subsequentes à reação de Twitter e Facebook ao ocorrido no dia 6 de janeiro. 

As plataformas expurgaram usuários que consideravam responsáveis por incitar a violência ou espalhar desinformação. O fundador do Telegram, Pavel Durov, chamou este movimento de a "maior migração digital da história da humanidade".

A cascata de novos usuários apresenta uma nova complicação para Durov, que se posiciona como um aliado das ruas e da liberdade de expressão. Ele promoveu o Telegram, que combina características do Facebook e do Twitter com mensagens criptografadas e uma filosofia de moderação sem intervenção, como um refúgio dos oprimidos.

Com Washington e o resto dos Estados Unidos em alerta máximo depois da violência no Capitólio, alguns temem que os recursos que fazem o Telegram uma ferramenta popular para organizar a resistência contra regimes autoritários possam ser usadas pela extrema direita e os partidários de Trump para causar mais caos. 

O FBI já alertou aos chefes de polícia dos EUA para estarem atentos a potenciais ataques de milícias armadas e extremistas racistas.

“Há uma queda de braço entre as pessoas que estão usando o Telegram e outras plataformas, para o bem, e as pessoas que os usam para prejudicar a democracia. Vemos a mesma abertura e senso de conexão que é usado por ativistas democráticos explorados de forma oportunista por extremistas”, destaca Nina Jankowick, uma analista de desinformação do Wilson Center, um centro de pesquisas de Washington.

Durov, inicialmente, recebeu bem o fluxo de usuários e criticou as gigantes do setor pela expulsão, sugerindo que elas faziam um esforço para limitar o discurso livre. Na última segunda-feira, porém, ele anunciou que sua equipe bloqueou centenas de posts de canais americanos que convocavam atos de violência antes da posse de Joe Biden.

“Nas últimas duas semanas, o mundo seguiu os eventos nos Estados Unidos com preocupação. Embora os Estados Unidos representem menos de 2% de nossa base de usuários, nós do Telegram também assistimos à situação de perto.”, disse Durov em um post no seu canal da plataforma.

Segundo ele, 94% dos 25 milhões de novos usuários vêm da Ásia, Europa, América Latina, Oriente Médio e Norte da África.

Alguns recorreram ao Telegram por medo envolvendo questões de privacidade, depois que o WhatsApp informou a seus clientes que estava compartilhando informações com sua "empresa-mãe", o Facebook

Mas vários deles são pessoas que foram banidos recentemente de outros serviços por disseminar visões extremistas. 

O Proud Boys, grupo americano de extrema direita, direcionou novos seguidores para grupos de bate-papo no Telegram com nomes como “Fatos de odio” e “Assassinar a mídia”, e contas estabelecidas de direita viram picos significativos no número de membros.

Velhos Desafios

Não é a primeira vez que o Telegram teve que lidar com personagens desagradáveis aproveitando os mesmos recursos que atraem ativistas pela democracia. 

Depois de uma repressão semelhante feita pelo Twitter aos radicais islâmicos alguns anos atrás, o Estado Islâmico migrou para o serviço e o usou para orquestrar ataques terroristas, espalhar propaganda e encontrar recrutas.

Vários ataques na França foram realizados por militantes do Estado Islâmico que usaram a função de chat criptografado do Telegram para coordenar suas ações. Quando as autoridades francesas buscaram informações sobre os agressores com Durov, ele respondeu que os protocolos de sigilo tornavam impossível obter informações do usuário, mesmo para funcionários do Telegram.

Durov, um libertário extremo que costuma ser descrito como o Mark Zuckerberg russo, enfrenta há anos os esforços do Kremlin para silenciá-lo em seu país de origem e agora vive em um exílio autoimposto.

Ele fundou o Telegram com seu irmão em 2013 como um posto avançado digital da liberdade de expressão depois que o Kremlin o retirou do controle do Vkontakte, um popular site de mídia social que ele criou como uma versão russa do Facebook.

Protestos

Em agosto de 2020, quando os resultados das eleições presidenciais começaram a mostrar que o ditador de longa data da Bielo-Rússia, Alexander Lukashenko, poderia ter perdido, seu governo fechou rapidamente a infraestrutura de comunicações do país, visando aplicativos de mídia social como WhatsApp, Twitter e Facebook.

O Telegram também caiu no início. Mas Durov interveio rapidamente, permitindo o que ele chamou de "ferramentas anticensura" para manter o Telegram em funcionamento, provavelmente incluindo o que é conhecido como fronting de domínio, que disfarça a origem do tráfego online.

Depois que Lukashenko declarou vitória e os manifestantes saíram às ruas, o Telegram foi uma fonte de informações ininterruptas e uma plataforma para organizar a resistência.

O canal Telegram para Nexta, um serviço de notícias administrado por exilados bielorrussos na vizinha Polônia, começou a fornecer suporte logístico para seus dois milhões de seguidores locais, intercalando vídeos da repressão policial aos manifestantes com instruções e rotas de marcha para manifestações diárias.

“Por três dias a internet foi fechada na Bielo-Rússia e ninguém no mundo sabia o que estava acontecendo. A única fonte de informação era o Telegram”, disse Stepan Svetlov, que dirige o Nexta.

No Irã, onde o uso do Telegram ocupa 60% da largura de banda da internet do país, o aplicativo foi uma plataforma crucial para organizar e espalhar protestos antigovernamentais em 2017 e 2019. Ele permitiu que os manifestantes compartilhassem vídeos da repressão quando jornalistas e câmeras foram proibidos.

O governo iraniano tentou banir o aplicativo em 2018, mas fez pouca diferença. Os iranianos apenas usaram VPNs, ou redes privadas virtuais, para contornar o bloqueio do governo.

“É um buraco nas paredes da censura da República Islâmica.  É a forma dominante de se manter informado e conectado e de se organizar. Todo mundo usa, mesmo os avós que normalmente não navegam em tecnologia”, ressalta Omid Memarian, um analista independente de direitos humanos e tecnologia no Irã.

Dmitry Peskov, porta-voz do presidente Vladimir Putin, o usa. O mesmo acontece com muitos dos principais propagandistas da Rússia, incluindo Margarita Simonyan, que informou a seus seguidores este mês que planejava transferir todas as suas comunicações exclusivamente para o Telegram. As únicas exceções, ela brincou, eram os dois assassinos por trás do envenenamento em 2018 de um ex-espião russo na Grã-Bretanha.

Pouco depois que o Twitter bloqueou a conta de Trump, Dmitri Polyanskiy, o embaixador adjunto da Rússia nas Nações Unidas, pediu ao presidente que passasse para o Telegram também.

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