‘Tem ocorrido um embargo emocional sobre Cuba’

Poeta nascido na Espanha e criado em Miami, filho de pais que deixaram Cuba para viver nos EUA 

Entrevista com

Richard Blanco

Michael T. Luongo / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2015 | 01h00

Quando Richard Blanco leu seu poema One Today na segunda posse do presidente americano, Barack Obama, em 2013, ele foi o primeiro poeta imigrante, latino e declaradamente gay a fazê-lo. Blanco, de 47 anos, nasceu na Espanha e foi criado em Miami, filho de pais que abandonaram a Cuba de Fidel Castro. Seu livro, The Prince of Los Cocuyos: A Miami Childhood (O príncipe dos vaga-lumes: uma infância em Miami, em tradução livre), foi publicado no ano passado. Com Ruth Behar, uma escritora de origem cubana e professora da Universidade de Michigan, ele começou o blog, Bridges to/from Cuba, para promover o diálogo entre cubanos na ilha e os da diáspora. Recentemente, Blanco - que amanhã declamará uma de suas poesias - compartilhou seus insights sobre visitar Cuba no momento em que o país e os Estados Unidos começam a normalizar relações. A seguir, alguns trechos editados da entrevista.

Ao conhecer o presidente Obama, o que o sr. pensou quando ouviu sobre as mudanças entre os Estados Unidos e Cuba?

Fiquei impressionado com a iniciativa ousada do presidente. Ao mesmo tempo, considerei com grande empatia as histórias de vida de exilados como minha mãe, lutas por liberdade da Guerra Fria e o sonho americano. Eu me vi ansioso por algumas garantias de que essas mudanças históricas tragam mais liberdade e prosperidade às pessoas de Cuba, que espero que o presidente não perca de vista. Abrir Cuba precisa significar mais do que nossos desejos como americanos de poder viajar livremente à ilha.

Como foram suas visitas pessoais?

Visitei Cuba seis vezes nos últimos 20 anos, ficando com minha família cubana. Na visita mais recente, em junho, fiquei agradavelmente surpreso com o número de empresas licenciadas que tinham aberto, restaurantes, casas noturnas, cheias de cubanos, não só de turistas. O transporte melhorou, incluindo os carros dos anos 50 que agora transportam pessoas para cima e para baixo na Avenida Línea, em Havana, por 10 pesos. O que eu gosto de chamar, brincando, de “Cuber” em vez de “Uber”.

Cite alguns de seus locais favoritos.

Varadero é a praia mais bonita do mundo. Um passeio no meio da noite por Havana Velha. Existe arte por toda parte em Cuba. Fui à Fábrica de Arte, uma mistura de galerias de arte, espaços teatrais, bares e lojas de artesanato. Mas a verdadeira beleza de Cuba é sua gente.

Que papel acha que escritores cubanos e cubano-americanos poderiam ter nas mudanças de relacionamento entre os Estados Unidos e Cuba?

Tem havido o que eu vejo como um embargo emocional, um Muro de Berlim invisível atravessado no Estreito da Flórida que afetou minha geração de cubano-americanos, a diáspora cubana e o povo de Cuba. Por isso, Ruth Behar e eu criamos nosso blog para cubanos de todas as partes se conectarem e trabalharem em meio a essas mudanças por meio da narração de histórias e do intercâmbio cultural.

Que impacto o sr. acha que este novo relacionamento poderá ter nos direitos de pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros na ilha?

Muito tem sido falado sobre a filha de Raúl Castro, Mariela, e seu trabalho como defensora de direitos dos gays. Acho que o turismo gay poderá ter um impacto positivo. Sermos exemplos vivos dos direitos que adquirimos e desfrutamos nos Estados Unidos pode servir de inspiração para a comunidade LGBT de Cuba.

Muitos de nós que poderíamos ter visitado Cuba ou se imaginaram visitando Cuba pensam nela nostalgicamente.

Essa é uma questão que me incomoda um pouco, porque carece de sensibilidade. Para americanos, Cuba tem um domínio psíquico sobre a imaginação, mas precisamos compreender que Cuba é um país real com pessoas reais. O povo cubano não existe para entreter nossas noções românticas dele, passadas, presentes ou futuras.


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