Temendo ataque do Exército, sírios fogem para a Turquia

Moradores de cidade onde soldados morreram erguem barricadas para bloquear entrada dos militares

BBC

08 de junho de 2011 | 11h33

Refugiados sírios aguardam para entrar no território da Turquia

 

ANCARA - Centenas de sírios estão cruzando a fronteira do norte da Síria com a Turquia para escapar da violência no país, informaram as autoridades turcas. Muitos dos refugiados dizem ter saído da cidade de Jisr al-Shughour porque temiam uma ofensiva militar, depois que o governo afirmou que 120 oficiais das forças de segurança foram mortos por "gangues armadas" no local. Moradores que permaneceram na cidade criaram barricadas nas estradas em uma tentativa de impedir e entrada das forças de segurança.

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O governo turco afirmou que não fechará as portas aos refugiados. Falando em uma coletiva de imprensa em Ancara, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, disse que o país está monitorando a situação e pediu a Damasco que agisse com tolerância.

Enquanto isso, Grã-Bretanha e França aumentaram a pressão sobre o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para que haja uma votação de uma resolução que condene o governo sírio pela repressão aos protestos.

 

O governo britânico anunciou que pretende apresentar um projeto para a resolução ainda nesta quarta-feira. No entanto, diferentemente do caso da Líbia, a resolução não sugere ações militares ou sanções a Damasco.

 

'Queimando pneus'

 

 

O enviado especial da BBC à fronteira entre a Síria e a Turquia, Owen Bennett-Jones, disse que ambulâncias turcas estão transportando refugiados feridos da Síria para dentro do país. Alguns deles estão sendo deixados em acampamentos na fronteira e outros são levados para o hospital de uma cidade vizinha. Oficialmente, a Turquia diz que 450 pessoas já atravessaram a fronteira, mas moradores locais dizem que o número pode ser maior.

O governo da Síria, por sua vez, disse que vai agir "com firmeza" para retomar o controle de Jisr al-Shughour, depois que 120 soldados foram mortos na última segunda-feira. Mas os manifestantes insistem que o levante popular contra o regime do presidente Bashar al-Assad é pacífico e rejeitam os relatos do governo sobre gangues armadas.

O suposto ataque ocorreu em um momento de intensificação dos conflitos no último fim de semana que resultou na morte de dezenas de ativistas anti-governo. O correspondente da BBC no Líbano, Jim Muir, diz que ainda não há relatos de ações militares em Jisr al-Shughour, apenas rumores sobre movimentação das tropas e preparativos nos arredores da cidade.

Testemunhas dizem que alguns ativistas ergueram barreiras de pedras, troncos de árvores e pneus queimados na principal estrada de acesso á cidade, para tentar bloquear o avanço das forças de segurança. Na última terça-feira, moradores de Jisr al-Shughour escreveram mensagens no site Facebook, dizendo que temem um 'massacre' e pedindo ajuda de pessoas de fora do país.

Texto revisado

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse que a proposta de resolução que será apresentada ao Conselho de Segurança foca na "condenação da repressão e exigência de prestação de contas e ação humanitária" por parte do governo da Síria. "Se alguém votar contra a resolução ou tentar vetá-la, isso deve estar em sua consciência", disse.

Na última terça-feira, o porta-voz da Grã-Bretanha na ONU disse que uma votação do Conselho deverá acontecer no fim desta semana ou no início da próxima. Horas antes, o ministro das Relações Exteriores francês Alain Juppe disse que é "inconcebível que as Nações Unidas permaneçam em silêncio", enquanto a violência na Síria aumenta.

No entanto, a correspondente da BBC na ONU, Barbara Plett, diz que alguns membros do Conselho - como o Brasil, a África do Sul e a Índia - estão receosos sobre a votação. Eles temem que uma resolução possa ser o primeiro passo em direção a uma intervenção militar como a que acontece na Líbia, por causa da repressão aos protestos contra o coronel Muamar Khadafi.

Mas diplomatas dizem que a França e a Grã-Bretanha revisaram os textos considerando estas preocupações. Os dois países querem conseguir o apoio do maior número possível de membros no conselho para tornar politicamente difícil para a Rússia e a China - dois países poderosos que não apoiam qualquer ação contra o país - vetar a resolução.

Também nesta quarta-feira, a embaixadora da Síria na França negou que tenha renunciado ao cargo. Em entrevista à TV francesa, Lamia Chakkour disse que a suposta entrevista telefônica em que ela teria dito que renunciaria era parte de uma campanha de desinformação contra o governo do presidente sírio Bashar al-Assad.

Os protestos pela renúncia de Assad, inspirados pelos levantes populares que derrubaram os governo de Tunísia e Egito, vêm ocorrendo há meses na Síria. Eles começaram em março na cidade de Deraa e se espelharam por várias cidades. Assad, cuja família dirige a Síria há quatro décadas, prometeu introduzir reformas, mas seus oponentes exigem que ele deixe o poder.

 

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