Anthony WALLACE / AFP
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Governo de Hong Kong cita pandemia e adia eleições legislativas para 2021

Disputa ao Legislativo ocorreria em 6 de setembro e oposição sustenta que a adiamento ocorre por causa do receio da China, que impôs à cidade uma nova lei de segurança nacional, de que candidatos pró-democracia triunfassem nas urnas

Keith Bradsher, Elaine Yu, Steven Lee Myers / The New York Times, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 09h25
Atualizado 31 de julho de 2020 | 18h22

HONG KONG - O governo de Hong Kong decidiu nesta sexta-feira, 31, adiar por um ano a eleição legislativa que estava marcada para o dia 6 de setembro. As autoridades alegaram que a medida é necessária para conter a pandemia de coronavírus, mas a oposição diz que a decisão foi tomada por que Pequim teme a vitória nas urnas de candidatos pró-democracia. 

O adiamento é mais uma medida de repressão a opositores e ocorre um mês após a China instaurar na cidade uma lei de segurança nacional, que impõe duras penas a militantes e políticos dissidentes. Antes de impor a nova legislação, muitos já tinham a certeza de que as regras seriam usadas para intimidar a oposição, mas alimentavam uma esperança de que ela não significasse o começo da repressão. 

As expectativas, porém, foram frustradas. Ignorando críticas e sanções internacionais, o governo chinês usou a lei para esmagar a oposição pró-democracia de Hong Kong com uma ferocidade surpreendente. 

Só na última semana, as autoridades demitiram um professor de direito da Universidade de Hong Kong, figura-chave do movimento democrático da cidade, e prenderam quatro jovens ativistas por suspeita de expressarem apoio online à independência do território. O governo também barrou 12 candidatos ao Legislativo, todos pró-democracia. Tudo isso com base na nova lei.

De acordo com analistas, a amplitude e a severidade das ações refletem a urgência de Pequim para abafar a oposição no território, depois de mais de um ano de uma revolta política que se refletiu em protestos de rua gigantescos. “Vem mais por aí”, disse Victoria Tin-bor Hui, cientista política de Hong Kong, da Universidade de Notre Dame.

A consolidação do poder sobre a cidade reflete movimentos mais amplos da China para estender seu poderio político, econômico e militar, em um momento em que o mundo se ocupa da pandemia.

Os países ocidentais reagiram às medidas de Pequim, impondo sanções e até suspendendo acordos de extradição com Hong Kong, mas sem sucesso. De certa forma, a reação parece ter encorajado a China, que culpa a interferência estrangeira pela dissidência na cidade. 

“O povo de Hong Kong merece ter sua voz representada pelas autoridades que escolherem nessas eleições”, disse o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, antes do adiamento das eleições. “Se eles destruírem isso, ficará provado que o Partido Comunista da China transformou Hong Kong em uma cidade governada por comunistas.”

Dentro de suas fronteiras no continente, a China sufoca a dissidência política. Para as autoridades do país, Hong Kong – com autonomia política nominal e forte movimento democrático – tem sido um grande aborrecimento, especialmente depois que grandes protestos desafiaram, de maneira aberta e, às vezes, violenta, o controle e até a soberania de Pequim sobre o território no ano passado.

Com a repressão, Pequim está seguindo o manual autoritário de países como a Rússia: realiza eleições, mas as controla de maneira que não reflitam a vontade genuína dos eleitores. O presidente russo, Vladimir Putin, recentemente, orquestrou um referendo constitucional para se perpetuar no governo. Depois, ordenou uma série de prisões, com forma de abafar o descontentamento antes que aumentassem os distúrbios.

“Eles estão perdendo a confiança para enfrentar o povo, enfrentar a escolha do povo, enfrentar as demandas do povo”, disse Alvin Yeung, parlamentar pró-democracia do Partido Cívico, que foi impedidos de concorrer nas eleições. “É medo.”

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No dia em que a lei entrou em vigor, a polícia deteve dez manifestantes por violações, entre eles um jovem que dirigia uma motocicleta com a bandeira da libertação de Hong Kong e colidiu com policiais. Tong Ying-kit, que teve de ser hospitalizado após a colisão, foi o primeiro a ser acusado formalmente pela nova lei – e continua preso.

A agência recém-criada para fazer cumprir as novas regras, o Gabinete para Salvaguarda da Segurança Nacional, logo se estabeleceu no Metropark Hotel, no bairro de Causeway Bay e o cercou de barricadas, uma manifestação concreta da crescente força autoritária de Pequim sobre o território.

A agência é chefiada por Zheng Yanxiong, alto funcionário do Partido Comunista enviado de Guangdong, província vizinha no continente. Ele ficou conhecido por sua hostilidade a um experimento democrático de curta duração em Wukan, uma vila de Guangdong, quase uma década atrás.

Triunfos

Tin-bor Hui comparou a estratégia de Pequim à Arte da Guerra, livro de Sun Zhu. Ela disse que Pequim explorou vantagens para derrotar seus inimigos, não apenas com a lei de segurança em Hong Kong, mas também no Mar do Sul da China, na fronteira do país com a Índia e em outras áreas. “A dureza da lei não pode ser medida apenas pelas prisões”, disse Hui. “Mas sim pelos efeitos de dissuasão em silenciar quem se atreve a discordar.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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