Temendo escalada militar, Rússia e China pressionam Coreia do Norte

Advertência é feita após o regime de Pyongyang apontar mísseis para bases americanas na Coreia do Sul e no Oceano Pacífico em resposta a exercícios militares

Cláudia Trevisan, correspondente de O Estado de S. Paulo

29 de março de 2013 | 19h17

PEQUIM - Milhares de soldados, estudantes e trabalhadores norte-coreanos marcharam nesta sexta-feira, 29, na principal praça da capital Pyongyang aos gritos de "morte aos imperialistas dos Estados Unidos" e "eliminar os agressores dos EUA", horas depois de o líder Kim Jong-un ter decidido direcionar mísseis para alvos dos EUA.

A multidão agitava punhos cerrados, enquanto desfilava pela Praça Kim Il-sung, a mesma na qual ocorrem as paradas militares sincronizadas que se transformaram em símbolo da Coreia do Norte. Imagens do evento mostravam grupos uniformizados e organizados, em um indício de que a demonstração estava longe de ser espontânea.

De qualquer maneira, a mobilização popular representa mais um passo na escalada de ameaças desencadeada pelo regime de Kim Jong-un no início do mês, em resposta a exercícios militares conjuntos dos Estados Unidos e da Coreia do Sul.

O regime de Pyongyang anunciou o abandono do armistício que colocou fim à Guerra da Coreia, em 1953, e de todos os tratados de não agressão firmados pelos dois lados da Península Coreana. Depois, ameaçou realizar ataques nucleares preventivos contra os EUA e a Coreia do Sul e, ontem, direcionou mísseis aos dois países.

Analistas temem o caráter imprevisível de Kim Jong-un, que tem 30 anos e chegou ao comando da potência nuclear em dezembro de 2011, depois da morte de seu pai, Kim Jong-il.

"Kim Jong-un é perigoso, jovem, inexperiente e está ansioso por mostrar à população que pode ser bem sucedido", opinou o sul-coreano Heungkyu Kim, professor da Sungshin Women’s University e ex-consultor do Conselho de Segurança da Coreia do Sul.

Na Rússia, o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, disse temer que a região escorregue para a "espiral" de um círculo vicioso. "Nós podemos perder o controle da situação", declarou o chanceler, de acordo com a agência Itar-Tass. Lavrov criticou de maneira implícita os Estados Unidos, ao afirmar que não se deve usar a tensão na península como pretexto para o fortalecimento militar e a busca de "objetivos geopolíticos".

Na quinta-feira, os americanos anunciaram que dois bombardeiros "invisíveis" B-2 participaram dos exercícios militares conjuntos que realizam com a Coreia do Sul - o que provocou a decisão de Pyongyang de direcionar mísseis para os territórios de ambos os países.

Capazes de carregar armas nucleares, os jatos Stealth são equipados com dispositivos que impedem a sua detecção por radares, o que permite sua entrada furtiva no espaço aéreo de outros países.

Principal aliado da Coreia do Norte, a China repetiu o apelo para que os envolvidos mantenham a calma e se concentrem em reduzir a tensão na Península Coreana.

A imprensa oficial da Coreia do Norte divulgou nesta setxa fotos nas quais Kim Jong-un aparece diante de um mapa com planos do país para um eventual ataque aos Estados Unidos. Em outras imagens, havia um quadro com dados do arsenal militar do isolado regime, no qual estavam listados 1.852 aviões, 40 submarinos, 13 navios, 27 embarcações de apoio e 6 detectores de minas - parte dos números estava encoberta por oficiais que apareciam na foto.

Nos últimos dias, a versão online do principal jornal oficial do país, o Rondong Sinmun, estava dominada por referências belicosas, com fotos de soldados em exercícios militares, de tanques e de Kim Jong-un rodeado por generais do Exército.

Atividades militares. Citando fontes militares de Seul, a agência de notícias sul-coreana Yonhap disse que há um aumento de atividade nos locais de lançamento de mísseis de médio e longo alcance no país vizinho.

O fortalecimento militar é a prioridade da Coreia do Norte e está na base da doutrina "O Exército em Primeiro Lugar", criada pelo pai do atual líder, Kim Jong-il. Desde que chegou ao poder, Kim Jong-un manteve a política inalterada e obteve avanços no programa nuclear do país.

Em dezembro, a Coreia do Norte lançou um foguete de longo alcance, que os americanos classificaram como teste de míssil balístico intercontinental, atividade proibida por resoluções aprovadas no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

No dia 12 de fevereiro, o regime de Pyongyang realizou seu terceiro teste nuclear, com a explosão de um bomba menor, mais potente e mais leve do que as detonadas em 2006 e 2009. O Conselho de Segurança respondeu com novas sanções econômicas contra o país, aprovadas por unanimidade no dia 7.

O porta-voz do governo sul-coreano, Kim Min-seok, disse que o "incomum" anúncio da Coreia do Norte faz parte de uma estratégica "psicológica". Mas muitos especialistas e funcionários sul-coreanos duvidam que Pyongyang tenha mísseis de tão longo alcance para atingir bases americanas no Oceano Pacífico, muito menos o know-how para fabricar uma ogiva nuclear pequena o suficiente para ser usada nesses vetores.

Outros analistas acreditam que os novos mísseis norte-coreanos, que foram exibidos há quase um ano, são realmente intercontinentais, apesar de que o modelo Musudan, que teria um alcance de 4 mil quilômetros, nunca foi testado. Eles temem que a Coreia do Norte aproveite o atual clima de tensão como desculpa para testá-lo.

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