Temendo hostilidade, Le Pen prioriza campanha pela TV

O candidato da Frente Nacional Jean Marie Le Pen faz campanha para o segundo turno da eleição presidencial francesa privilegiando a televisão aos comícios públicos, por temer ser alvo de manifestações hostis. Um dos poucos comícios será em Marselha, onde liderou a votação contra Chirac e Jospin. Ele diz ser o candidato do povo contra o candidato do sistema, defendendo teses ousadas que o diferenciam dos representantes dos partidos tradicionais. Entre elas, a construção de "campos de trânsito", onde os estrangeiros sem emprego e sem documentos aguardariam, segundo ele, "mais ou menos confortavelmente", o momento de serem enviados de volta a seus países.Le Pen afirmou hoje que pretende acabar com "a paralisia das instituições pelos lobbies", propondo uma política de referendos , transferindo para o povo a decisão final sobre alguns grandes temas de sociedade. Por essa razão está propondo cinco consultas, uma por ano de mandato, transformando a França numa "republica referendaria". Preferência nacionalO primeiro seria a aprovação de um projeto de lei autorizando a França a se afastar do processo de integração européia e restabelecer o franco francês como moeda nacional. A França abandonaria a zona do euro e o tratado de Maastricht. Dessa forma, ele espera recuperar a contribuição francesa à União Européia estimada em 100 bilhões de dólares por ano, o que lhe permitiria financiar outros setores da economia. Em compensação , o agricultor francês deixaria de receber subsídios de Bruxelas que hoje representam 25% de sua renda. Jean Marie Le Pen pretende inserir o princípio de "preferência nacional" como o primeiro artigo da Constituição, submetendo ainda à aprovação popular a suspensão e mesmo inversão dos fluxos migratórios. Isso permitiria a expulsão dos trabalhadores imigrantes e dos clandestinos para os seus países de origem. Ele admitiu explicitamente, caso seja necessária, "a construção de campos de trânsito, onde eles poderão aguardar o momento da volta. Informado que o número desses imigrantes sem empregos e sem papéis poderá atingir a 500 mil pessoas, ele garantiu que dará "um tratamento humano" a todos, mas reafirmou que "os trabalhadores franceses devem ter prioridade na disputa do emprego", dentro dessa política de " preferência nacional", aprovada via referendo. Além desse projeto que chega a dar frio na espinha de muita gente , Le Pen defende o restabelecimento da pena de morte para os crimes mais graves e afirma o direito do governo "decretar o estado de urgência para restabelecer a segurança e a paz civil". Trata-se de um cheque em branco , num país que já conta com um dispositivo constitucional, o artigo 16, e que prevê medidas para situações insurrecionais excepcionais. Afirmando-se "economicamente à direita" ele propõe limitar a 35% a carga tributária francesa , uma queda de 10%, pois atualmente ela é da ordem de 45%., mas não explica como poderá financiar essa medida. No campo fiscal ele promete também suprimir o imposto sobre sucessão em linha direita e do próprio imposto sobre a renda. Os 50 bilhões de euros que deixaria de arrecadar, seriam compensados, mas essa soma corresponde a 4 pontos do PIB. Le Pen está virando as costas para o liberalismo econômico, propondo uma renegociação dos acordos comerciais da França, um "novo protecionismo" , pois pretende limitar os efeitos da concorrência econômica internacional sobre as empresas. Em suma, ele preconiza uma França voltada para si própria. AbortoO candidato da Frente Nacional tenta aproximar-se das correntes mais conservadoras ligadas ao ensino francês e a família. Segundo ele, "é preciso liberar a escola da manipulação ideológica" e dar aos pais o direito deles mesmos escolherem as escolas de seus filhos. Finalmente, Le Pen pretende inserir na Constituição "o caráter sagrado da vida humana e o respeito aos equilibrios naturais". O programa da Frente Nacional define a legislação sobre a interrupção voluntária da gravidez (aborto) como "símbolo da cultura da morte". Essas são as grandes orientações que o candidato da extrema direita promete seguir, caso seja eleito presidente da França.

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