(Photo by MOHAMMED ABED / AFP)
(Photo by MOHAMMED ABED / AFP)

Temendo o coronavírus, palestinos se dizem seguros isolados em Gaza

Isolado pelo bloqueio econômico imposto por Israel, moradores da Faixa de Gaza dizem estar se sentindo seguros pela primeira vez em anos

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 10h00

“Pela primeira vez sinto uma sensação de segurança em Gaza, mas acho que vai durar pouco”. Shadi Balbisi, engenheiro de 33 anos, é um dos 2 milhões de palestinos que vivem na faixa entre Egito, Israel e o Mar Mediterrâneo e precisam enfrentar a pandemia do novo coronavírus

Para Balbisi, o fato de viver em um lugar “isolado” há mais de 10 anos por conta do bloqueio econômico pode ajudar a conter a disseminação da doença, mas a preocupação dele é justamente se ela se espalhar. “Aqui há falta de equipamento médico e desinfetantes em razão do bloqueio de Israel. Sentimos um segurança pelos motivos errados.”

Desde 2007, Israel mantém um bloqueio ao enclave palestino com a ajuda do Egito sob a justificativa de ser o necessário para conter o Hamas, grupo que controla Gaza e é considerado pelo governo israelense e outros países ocidentais, como os Estados Unidos, uma organização terrorista.

Na Cisjordânia, a chegada do novo coronavírus também mudou costumes. “As notícias começaram aqui em Belém em 5 de março e, desde então, eu decidi ter meu próprio esquema de isolamento. Deixei a cidade e passo a maior parte do meu tempo trabalhando no campo”, diz o guia turístico palestino Hassan Muamer. 

Com a atividade turística paralisada, o guia foi com a família para uma região de montanhas a 13 quilômetros de Belém e começou a cultivar alguns legumes para tentar resistir aos meses de confinamento. “As principais ruas da cidade foram bloqueadas então ficamos sem acesso, exceto em casos de emergência. Mas aqui no campo, os fazendeiros têm melhores recursos para passar por essa fase.”

Muamer conversa com os amigos e parentes pelo WhatsApp e ligações telefônicas. Ele explica que acompanha a situação no resto da Cisjordânia pelas notícias e, em Gaza, pelos amigos. “Parece que estamos enfrentando uma nova ocupação, essa é a sensação.”

Na Cisjordânia, foram confirmados 57 casos do novo coronavírus e uma morte, ocorrida nesta quarta-feira, 25. Em Israel, foram confirmados 945 casos e uma morte. 

“A outra parte difícil é que Israel não atua como nosso governo. Eles não anunciaram nenhuma situação de emergência até os casos começarem a aumentar muito. Agora estamos com medo de quantos casos podem chegar aqui”, afirma Muamer. 

Em nota, Israel afirma que, em conjunto com a Autoridade Palestina (AP) - que governa a Cisjordânia - está coordenando medidas para minimizar a propagação da Covid-19. “Israel está fornecendo kits de proteção (como máscaras e roupas), kits de teste e workshops de treinamento para equipes médicas palestinas”, diz a nota.

“O coronavírus não faz distinção entre pessoas e fronteiras”, afirma o cônsul de Israel em São Paulo. Alon Lavi. “A AP é muito séria com isso (tema do coronavírus), veem como uma ameaça de verdade e a gente tem uma política para enfrentar essa nova realidade. Israel trabalha e ajuda a AP”, completa. 

Abandono dos palestinos

Balbisi conta que a população em Gaza está apreensiva com as notícias da Covid-19 e boa parte permanece dentro de casa, mas é preciso enfrentar antigos obstáculos. “Recebemos alimentos e remédios de ONGs. Ainda existem cortes de energia e a água que temos não é potável. Acredito que em Gaza não há chances de futuro mesmo que o mundo mude (depois dessa crise) porque ninguém está pensando em Gaza.”

O engenheiro vive com a família e agora está trabalhando de casa, por meio de ligações e redes como Facebook e WhatsApp. No domingo 22, foram registrados os dois primeiros casos de infectados pelo novo coronavírus em Gaza: dois homens, de 30 e 40 anos, que haviam voltado do Paquistão e agora estão isolados em um hospital de Rafah. Segundo o Ministério da Saúde, outros 144 testes foram realizados em pessoas com suspeita da nova doença, mas deram negativo. 

Em Gaza, as aglomerações estão proibidas e as escolas foram fechadas, nos hospitais as visitas estão limitadas e cirurgias que não são urgentes foram canceladas. O Ministério da Saúde afirma que as medidas são duras principalmente porque faltam 39% dos remédios, 23% dos insumos médicos e 60% de bolsas de sangue na região em razão do bloqueio israelense. 

Israel afirma que as passagens comerciais com Gaza ficarão abertas “para a transferência de mercadorias e assistência”. “Na semana passada, 206 toneladas de suprimentos médicos, 12 toneladas de alimentos e 50 toneladas de materiais de construção entraram em Gaza”, diz o governo israelense, em nota, ressaltando que “a coordenação com a região é feita entre o Ministério da Saúde da Palestina (órgão vinculado à AP) e a Organização Mundial da Saúde”.

A preocupação da OMS com a chegada do novo coronavírus a Gaza se deve justamente à precariedade do sistema de saúde, além da pobreza e da falta de estrutura sanitária já que a principal maneira de evitar a propagação da doença é lavar bem as mãos com água e sabão. “Em Gaza há dois laboratórios para testar a doença e Israel está preparada para ajudar esses laboratórios trabalhando com a Autoridade Palestina e a OMS”, explica o cônsul Lavi.

“Gaza vive seu próprio isolamento, o que atualmente pode ajudar, mais do que em qualquer outro momento da história. Acredito que quando isso passar, muitas coisas vão mudar. Teremos que ter um novo jeito de pensar, e espero que seja mais humano”, afirma Muamer.

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