EFE/EPA/KCNA
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Temendo perder o controle, Kim Jong-un aconselha famílias e mulheres norte-coreanas

'Mulheres devem usar roupas tradicionais que ajudem "todos os aspectos da vida transbordarem com nosso sabor, gosto e emoções nacionais', ordenou Kim

Michael E. Miller, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 10h00

Kim Jong-un não compareceu ao recentemente realizado 7º Congresso da União Socialista das Mulheres da Coreia, de acordo com a mídia estatal. Mas enquanto as palavras do líder supremo enchiam o auditório no domingo, centenas de mulheres norte-coreanas obedientemente tomaram nota de qualquer maneira.

As mulheres devem usar roupas tradicionais que ajudem "todos os aspectos da vida transbordarem com nosso sabor, gosto e emoções nacionais", ordenou Kim em uma carta lida por um importante funcionário norte-coreano. E assim fizeram: Fileiras e mais fileiras de mulheres usavam vestidos de cores vivas e máscaras azuis.

Elas deveriam cantar canções patrióticas em canteiros de obras e escrever cartas de incentivo aos soldados, disse Kim. E assim o fariam, em um Estado totalitário que lhes deixava pouca escolha.

Acima de tudo, Kim alertou as mulheres para protegerem seus filhos de "ideologia, cultura e estilos de vida estranhos".

Coisas aparentemente insignificantes como roupas e jeitos de falar incomuns eram, na verdade, um "tumor maligno que ameaça a vida e o futuro de nossos descendentes", disse ele, de acordo com o NK News, um veículo de Seul com foco na Coreia do Norte.

Os comentários de Kim foram os últimos de uma série de ataques de Pyongyang contra a influência estrangeira, que o país vê como uma séria ameaça. Durante anos, flash drives cheios de sucessos de bilheteria de Hollywood e K-Pop fluíram para a Coreia do Norte por meio de balões, contrabandistas humanos e até mesmo drones.

A Coreia do Norte recentemente triplicou a pena máxima por posse desse tipo de contrabando para 15 anos de trabalhos forçados, e pressionou com sucesso a Coreia do Sul a proibir o envio de pen drives, folhetos ou dinheiro através da fronteira.

Mas depois de fechar completamente sua fronteira no ano passado para manter o coronavírus sob controle, o país agora enfrenta uma escassez de alimentos tão terrível que Kim admitiu publicamente na semana passada que a situação está "tensa".

Com os problemas internos aumentando, não é surpresa que Kim esteja novamente alertando sobre a influência estrangeira, disse o especialista em Coreia do Norte Rüdiger Frank.

"A Coreia do Norte está no meio de uma crise econômica, e a estratégia de Kim Jong-un para lidar com ela é voltada para o público interno e fortalecer o papel do Estado", disse Frank, professor da Universidade de Viena, por e-mail. "Uma repressão na frente ideológica é uma consequência lógica."

Frank disse que viu o poder da cultura pop durante sua adolescência na Alemanha Oriental nos anos 1980. O mesmo aconteceu com o pai de Kim Jong-un, Kim Jong-il, que alertou há um quarto de século sobre o papel da cultura pop no colapso do bloco soviético.

Seu filho parece ter aprendido a mesma lição, disse Frank.

"Agora, novas tecnologias como mídia digital, dispositivos móveis etc. estão tornando cada vez mais difícil isolar a população da cultura sul-coreana", escreveu ele. "Os comentários de Kim Jong-un são uma confirmação de que a juventude da Coreia do Norte está sob influência substancial por esse tipo de cultura estrangeira."

Kim tentou algumas vezes se apresentar como um reformador cultural e fez alguns gestos simbólicos sobre questões de gênero. O líder autoritário enviou sua irmã para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, uma viagem que fez de Kim Yo-jong a primeira da família Kim a visitar a Coreia do Sul desde 1950, e rendeu uma comparação com Ivanka Trump.

Sua esposa, Ri Sol-ju, aparece regularmente em público, ao contrário de suas antecessores, e até anda de braços dados com o marido - "uma chocante demonstração pública de afeto e igualdade social", de acordo com Anna Fifield, ex-correspondente na Coreia do The Washington Post.

"Em um país onde até mesmo as esposas de altos funcionários usavam as roupas socialistas disformes que tornavam todos igualmente monótonos, Ri era uma figura extremamente moderna", escreveu Fifield em seu livro sobre Kim.

A Coreia do Norte aprovou uma lei de igualdade de gênero em 1946, e sua economia centralizada e comunista depende fortemente de mulheres trabalhadoras. Mas continua sendo uma "sociedade ainda altamente patriarcal", disse Frank. A violência sexual contra as mulheres, que muitas vezes não é punida, foi amplamente documentada.

A carta de Kim destaca algo que se tornou cada vez mais claro em seus discursos recentes, de acordo com Frank.

"Quando você enfrenta uma crise, pode recuar ou seguir em frente", disse ele. "A reação de Kim Jong-un, incluindo a tentativa hiperconservadora de regular a aparência e a fala dos adolescentes, mostra que o líder norte-coreano não é um reformador".

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