REUTERS/Olivia Harris
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'Temo por minhas irmãs afegãs'; leia o artigo de Malala Yousafzai

'Quando o Taleban dominou minha cidade natal, no Vale do Swat, no Paquistão, em 2007, e logo depois proibiu as meninas de estudar, eu escondi meus livros sob meu longo e volumoso xale e caminhei para a escola com medo'

Malala Yousafzai / NYT, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2021 | 20h19

Nas duas décadas recentes, milhões de mulheres e meninas afegãs receberam educação. Agora, o futuro que lhes foi prometido está perigosamente próximo de desaparecer. O Taleban - que até perder o poder, 20 anos atrás, impediu quase todas as meninas e mulheres de frequentar a escola no país e impunha duras punições a quem o desafiava - está de volta ao controle. Como muitas mulheres, temo por minhas irmãs afegãs.

Não consigo evitar a memória da minha própria infância. Quando o Taleban dominou minha cidade natal, no Vale do Swat, no Paquistão, em 2007, e logo depois proibiu as meninas de estudar, eu escondi meus livros sob meu longo e volumoso xale e caminhei para a escola com medo. Cinco anos depois, quando tinha 15 anos, o Taleban tentou me matar por falar publicamente a respeito do meu direito de ir à escola.

Não consigo sentir outra coisa a não ser gratidão pela vida que levo agora. Depois de me formar na faculdade, no ano passado, e começar a percorrer o caminho da minha própria carreira, não consigo imaginar perder isso tudo - voltar para uma vida definida para mim por homens armados.

Meninas e jovens mulheres afegãs estão novamente como eu já estive - desesperadas com o pensamento de que nunca mais poderão assistir a uma aula ou segurar um livro outra vez. Alguns membros do Taleban afirmam que não negarão educação a meninas e mulheres nem seu direito de trabalhar. Mas dado o histórico do Taleban de suprimir os direitos das mulheres com violência, o medo das afegãs é natural. Já estamos ouvindo relatos de universitárias afastadas por suas instituições de ensino e de trabalhadoras demitidas.

Nada disso é novidade para o povo do Afeganistão, que está encurralado há gerações em guerras dos outros - entre potências globais e regionais. Crianças nasceram em meio à guerra. Famílias vivem há anos em campos de refugiados - outros milhares fugiram de suas casas nos dias recentes.

Os kalashnikovs que armam o Taleban são um pesado fardo nas costas do povo afegão. Os países que usaram os afegãos como peões em suas guerras por ideologia e ganância os fizeram carregar esse peso por conta própria.

Mas não é tarde demais para ajudar o povo afegão - particularmente as mulheres e crianças.

Ao longo das duas semanas recentes, conversei com vários defensores do direito à educação no Afeganistão a respeito da atual situação e o que eles esperam que irá acontecer. (Não os identifico para não colocar em risco sua segurança). Uma mulher que coordena escolas de regiões rurais me disse que perdeu o contato com seus professores e estudantes.

“Normalmente trabalhamos com educação, mas agora mesmo estamos preocupados em erguer tendas”, afirmou ela. “Milhares de pessoas estão fugindo de suas casas, e precisamos de ajuda humanitária imediata para que famílias inteiras não morram de fome ou por falta de água potável.” Ela ecoou um apelo que ouvi de outras pessoas: potências regionais deveriam estar garantindo ativamente a proteção de mulheres e crianças. Países vizinhos - China, Irã, Paquistão, Tajiquistão, Turcomenistão - devem abrir suas fronteiras para civis em fuga. Isso salvará vidas e ajudará a estabilizar a região. Eles também devem permitir que crianças refugiadas frequentem escolas locais e que organizações humanitárias ergam centros temporários de educação em campos e assentamentos.

Olhando para o futuro do Afeganistão, outro ativista afirmou querer que o Taleban seja específico a respeito do que será permitido. “Não é suficiente dizer que ‘meninas podem frequentar a escola’. Precisamos de acordos específicos garantindo que meninas possam completar sua educação, estudar ciências e matemática, ir à universidade e ter acesso permitido ao mercado de trabalho e à profissão que escolherem.” Os ativistas que conversei temem o retorno de uma educação voltada somente à religião, que privaria crianças das habilidades necessárias para alcançar seus sonhos e deixaria seu país sem médicos, engenheiros e cientistas no futuro.

Todos teremos tempo de debater o que deu errado na guerra no Afeganistão, mas neste momento crítico temos de ouvir as vozes das mulheres e meninas afegãs. Elas estão pedindo proteção, educação, liberdade e o futuro que lhes foi prometido. Não podemos continuar a decepcioná-las. Não temos tempo a perder.

*Malala Yousafzai (@malala) é uma ativista internacional pela educação de meninas e a pessoa mais jovem já laureada com o Prêmio Nobel da Paz. Ela também é cofundadora do Malala Fund.

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