Temor de desestabilização ronda a Ásia

Possível pesadelo para os responsáveis pelas decisões políticas na região é um jogo de [br]equilíbrio zero entre Pequim e Washington no qual eles são obrigados a optar entre a[br]dependência econômica da China e a dependência militar dos EUA

Gareth Evans, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

PROJECT SYNDICATE

Enquanto a China ameaça cada vez mais o lugar dos Estados Unidos como maior potência econômica mundial e sua aversão ao domínio militar americano do Pacífico Ocidental torna-se mais óbvia, aliados e amigos dos EUA na região da Ásia/Pacífico manifestam uma crescente ansiedade por causa de sua localização estratégica num futuro mais distante.

O possível pesadelo para os responsáveis pelas decisões políticas de Seul a Camberra é um jogo de equilíbrio zero no qual eles são obrigados a optar entre uma grande dependência econômica da China e a ainda enorme dependência militar dos EUA.

Ninguém acredita que a relação EUA-China possa acabar em lágrimas dentro em breve, principalmente por causa do problema do crédito e do consumo que torna as duas nações mutuamente dependentes e atualmente aprisionadas. Mas a perspectiva para daqui a 10 ou 20 anos já começa a provocar uma quantidade de análises e de comentários, concentrados nas tensões que por muito tempo se agravaram no Mar do Sul da China, explodem de tempos em tempos no Mar do Leste da China e estão constantemente à espreita no Estreito de Taiwan.

O que estes países regionais com seus interesses e lealdades concorrentes poderão fazer para evitar o sofrimento que certamente enfrentarão se a competição entre EUA e China acabasse se tornando violenta? Provavelmente nenhum de nós pode fazer muito para influenciar no contexto mais amplo. Mas há várias mensagens - algumas apaziguadoras, outras bastante duras - que poderiam ser transmitidas com certa urgência à China e aos EUA pelo Japão, Coreia do Sul, pelos principais membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) e pela Austrália, juntos, mostrando qual seria a melhor maneira de contribuir para a preservação da estabilidade da região.

Mensagens. Os gigantes nem sempre são particularmente tolerantes com os mortais menos importantes, mas pela minha experiência os EUA costumam ouvir mais e responder melhor a seus amigos quando seus pressupostos políticos estão sendo testados ou mesmo ameaçados, enquanto a China sempre respeitou a força e a clareza de intenções de seus parceiros e interlocutores. Por outro lado, as mensagens que chegam em bloco são mais difíceis de compreender do que quando aparecem isoladamente.

As mensagens para a China deveriam ser tranquilizadoras. Concordamos que ela sempre foi mais séria do que a maioria dos outros países em relação à questão de um mundo livre das bombas nucleares e compreendemos sua necessidade de garantir a sobrevivência do seu mínimo arsenal nuclear como meio de dissuasão, enquanto tais armas existirem.

Compreendemos seu interesse em ter uma Marinha capaz de operar nos grandes oceanos para proteger suas rotas marítimas contra qualquer ameaça. Reconhecemos que ela afirma uma soberania marítima da qual não abre mão. E reconhecemos a força do sentimento nacional em relação ao lugar de Taiwan numa China única.

Mas a estas mensagens precisam corresponder outras. Quanto à sua capacidade nuclear e militar em geral, a confiança mútua só poderá ter como base uma maior transparência - e não apenas com respeito à doutrina, mas também ao número e à prontidão de armas e tropas - do que a China tradicionalmente mostrou-se disposta a oferecer.

Um aumento do arsenal nuclear chinês será motivo de desestabilização, além de totalmente contraproducente em relação a seu objetivo declarado de um desarmamento nuclear global. Para que outros países da região reduzam sua dependência da capacidade nuclear de dissuasão dos EUA (e não adquiram capacidade atômica própria), terão de confiar em sua capacidade de fazer frente a toda ameaça pelos meios convencionais.

Neste contexto, a China não deveria esperar uma redução do compromisso dos aliados tradicionais dos EUA na região em relação a estes, e ao apoio americano que se poderia esperar no futuro. E embora o planejamento da defesa de outros países da região não pressuponha um propósito agressivo da China, tal planejamento precisa ser realizado - como mostra o recente Livro Branco da Defesa da Austrália - levando claramente em conta a capacidade dos principais atores regionais.

Do mesmo modo, uma agressão da China na tentativa de impor suas reivindicações territoriais, até mesmo em relação a Taiwan, seria desastrosa para sua credibilidade internacional, para a paz regional e para a prosperidade que é a premissa sobre a qual se baseia a estabilidade interna do país. Nos Mares do Sul e do Leste da China, reivindicações soberanas conflitantes deveriam ser debatidas com maior sucesso na Corte Internacional de Justiça; se isso não fosse possível, deveriam ser congeladas e teriam de ser negociados pacificamente acordos de acesso mútuo e exploração conjunta dos recursos.

Pragmatismo. As mensagens da região aos EUA precisam combinar um sentimento tradicional com algum realismo pragmático. Nossa apreciação do apoio que nos foi dado no passado no âmbito da segurança - e que esperamos continue no futuro - nunca diminuiu. Mas, por mais paradoxal que possa parecer, a estabilidade da região Ásia/Pacífico poderá correr um risco maior se os EUA continuarem afirmando sua absoluta primazia ou domínio do que numa distribuição mais equilibrada de poderio militar convencional.

A mensagem mais prudente que seus aliados e amigos regionais poderiam dar aos EUA é a que ouvi o ex-presidente Bill Clinton pronunciar em uma reunião privada em Los Angeles, há dez anos: "Poderemos procurar usar nosso poderio militar e econômico sem precedentes com a finalidade de liderar o bloco global perpetuamente ... Mas uma opção melhor para nós seria tentar usar esta primazia para criar um mundo em que possamos viver confortavelmente quando não formos mais os líderes do bloco global". / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É PRESIDENTE EMÉRITO DO INTERNATIONAL CRISES GROUP E EX-CHANCELER DA AUSTRÁLIA

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