Temor de luta pelo poder ronda Sérvia após assassinato

Atiradores escondidos nas proximidades da sede do governo mataram o primeiro-ministro da Sérvia, um líder pró-Ocidente que ajudou a derrubar Slobodan Milosevic e havia declarado guerra ao crime organizado. O assassinato de Zoran Djindjic ao meio-dia, no centro de Belgrado, levou o governo a declarar um estado de emergência nacional por temores de que o volátil país dos Bálcãs seja arrastado para a violência numa guerra civil pelo poder.Djindjic, 50 anos, chegou a ser levado com vida a um hospital de Belgrado, depois de ter sido baleado no abdome e nas costas, segundo Nebojsa Covic, um vice-primeiro-ministro. Um dos guarda-costas de Djindjic também foi ferido, informou a polícia.Foi o primeiro assassinato de um chefe de governo europeu em atividade desde que o primeiro-ministro sueco Olof Palme foi morto a tiros em Estocolmo, em 1986.Fontes policiais relataram que dois franco-atiradores postados num prédio na frente da sede governamental dispararam contra Djindjic quando ele descia lentamente de seu carro, com a ajuda de muletas, devido a uma contusão que sofreu no pé durante uma partida de futebol. Uma bala de grosso calibre, possivelmente disparada por um fuzil, amassou o carro blindado de Djindjic.Dois suspeitos foram detidos, segundo testemunhas. Mas a polícia, em dúvida se eram eles os pistoleiros, lançou uma busca nacional aos assassinos. Barreiras foram montadas em estradas de Belgrado. O tráfego de ônibus, trens e aviões foi suspenso na capital. Testemunhas disseram que os dois suspeitos tentaram fugir num carro vermelho.Citando um perigo à "ordem constitucional", a presidente em exercício da Sérvia, Natasa Micic, decretou o estado de emergência, dando aos militares e policiais o poder de prender suspeitos sem ordem judicial."O Estado irá usar de todos os meios ao seu dispor até que os perpetradores desse crime, e de todos os crimes no passado, sejam trazidos à Justiça", determinou Micic. Pela Constituição, ela pode nomear um sucessor, que tem de ser aprovado pela maioria do Parlamento sérvio.O Conselho Supremo de Defesa, o mais alto órgão de segurança do Estado, entrou numa reunião de emergência para discutir como colocar em vigor o estado de emergência.MilosevicMais tarde hoje, o governo acusou Milorad Lukovic, um senhor da guerra leal a Milosevic, e várias outras figuras do submundo como mandantes do crime. "Sua intenção era a de espalhar o medo e o caos no país", disse um comunicado do governo. Djindjic tinha muitos inimigos devido a suas posições pró-reformas e pró-Ocidente.Ele foi desprezado por muitos por ter extraditado Milosevic para o tribunal de crimes de guerra da ONU, em Haia, em 2001, e por pedir a prisão de outros sérvios indiciados pelo tribunal.Ele também passou a ser visado por poderosos chefões do crime organizado da Sérvia e por chefes milicianos aliados ao ex-presidente iugoslavo.Quando Milosevic foi derrubado, em outubro de 2000, por uma revolta popular, Djindjic admitiu ter conseguido fazer com que figuras-chave do crime organizado mudassem de lado. Mas posteriormente ele se voltou contra eles, declarando guerra aberta ao contrabando generalizado de produtos, drogas e mulheres pela Sérvia pós-Milosevic.Disparos de carros em movimento, explosões e tiroteios entre gangues têm sido comuns na Sérvia, que ainda tenta se recuperar dos 13 anos do desastroso regime de Milosevic.Forças obscuras"Forças obscuras que cresceram no país desde a década de 90 estão tentando fazer o tempo voltar atrás", avaliou Dobrivoje Radovanovic, um especialista independente em criminalidade. "Espero que as instituições da Sérvia tenham a força para enfrentar esse verdadeiro perigo".Policiais com metralhadoras e coletes à prova de balas paravam o trânsito no centro de Belgrado, vasculhando carros e checando identidades. Policiais também se posicionaram na frente de importantes prédios governamentais e na sede dos correios.Djindjic foi muitas vezes criticado por buscar poderes excessivos e por combater "impiedosamente" seus rivais políticos.Ele estava engajado numa áspera disputa política com seu antigo aliado Vojislav Kostunica, que deixou o cargo de presidente da Iugoslávia no começo do mês, depois que a Iugoslávia foi dissolvida e substituída por um novo Estado, denominado Sérvia e Montenegro.A briga de Djindjic com Kostunica, depois que os dois haviam se unido para derrubar Milosevic, virtualmente paralisou as reformas econômica e social.Kostunica disse hoje que, apesar de ter tido discordâncias com Djindjic, o assassinato foi "horrível... Isto mostra o pouco que já fizemos para democratizar a sociedade". Ele considerou que o homicídio foi "um aviso para que nos olhemos nos olhos e perguntemos o quanto o crime organizado penetrou em todos os poros da sociedade".O assassinato pode ser o prenúncio de dias turbulentos para a Sérvia. Uma dura luta para indicar o sucessor de Djindjic pode afetar a cooperação com o Ocidente.Djindjic foi aparentemente alvo de uma tentativa de assassinato no mês passado, quando um caminhão entrou repentinamente no caminho de seu comboio, que se dirigia ao aeroporto de Belgrado. Os carros evitaram por pouco a colisão, e Djindjic posteriormente desprezou a suposta tentativa de assassinato de 21 de fevereiro, classificando-a de um "esforço fútil" que não poderia parar as reformas democráticas.O governo, numa reunião de emergência, decretou hoje três dias de luto.BushO presidente dos EUA, George W. Bush, expressou suas condolências. Djindjic "será lembrado por seu papel para levar a democracia para a Sérvia e por seu papel para levar Slobodan Milosevic para a justiça", afirmou o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer.Um tecnocrata educado na Alemanha conhecido entre seus seguidores como "O Admistrador" por sua capacidade organizacional, e como "Pequeno Slobo" entre seus detratores, por suas tendências autoritárias, Djindjic conseguiu, de qualquer forma, ganhar algum capital político por sua determinação de entregar Milosevic, apesar de uma proibição constitucional à extradição de cidadãos sérvios.Apesar de ser ridicularizado por seu gosto por carros luxuosos e roupas vistosas, o fato de ele ter trocado Milosevic por uma ajuda internacional de US$ 1,2 bilhão parece ter feito com que fosse respeitado por um povo desesperado por melhorar seu padrão de vida, um dos mais baixos da Europa.

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