Temor entre líderes iraquianos

Autoridades acham que haverá um pacto de união tão amplo que o governo será incapaz de construir um Iraque pós-EUA

ANTHONY SHADID / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

A elite política iraquiana, que assumiu o poder com a invasão dos Estados Unidos e à qual foi confiado o futuro do país, iniciou uma forte autocrítica, uma abertura ameaçadora em se tratando de um país onde o que predomina é o temor de novas crises e até mesmo golpes com a saída das forças americanas. "Devemos nos envergonhar pela maneira como conduzimos o país", disse o vice-presidente Adel Abdul Mahdi, ex-exilado e um dos mais destacados políticos do país.

Esse veredicto de Mahdi tem sido repetido por companheiros da oposição no exílio que acompanharam as tropas americanas quando elas entraram em Bagdá em 2003 e estão governando o Iraque desde então. E ele é uma mostra extraordinária da apreensão que hoje toma conta do país, que continua sem um governo cinco meses depois de os iraquianos irem às urnas, para eleger um novo Parlamento.

Como tudo neste país, as consequências são imprevisíveis. As autoridades americanas esperavam, pelo menos publicamente, um acordo de divisão de poder que evitaria novas situações perigosas, mas as negociações fracassaram esta semana, "Sinto que há uma grande impaciência da população para com seus políticos", disse Christopher Hill, ex-embaixador americano no Iraque que pressionou por um acordo antes de partir para os EUA, na semana passada.

Para muitos iraquianos, especialmente aqueles que guardam na memória os quatro golpes em uma década após a queda da monarquia, em 1958, essa apreensão é com uma combinação perigosa de forças que há muito tempo atormenta o Oriente Médio: um Exército imprevisível, fraturado, e uma crescente frustração popular com uma classe política isolada, que às vezes parece à deriva e até indefesa.

Muitas autoridades acham que no final será firmado um acordo tão abrangente para um governo de união que poderá se tornar lamentavelmente fraco, incapaz de se afirmar, bloqueado pelo impasse quanto às leis necessárias para construir um Iraque pós-retirada americana. Mas o fracasso da elite que os EUA ajudaram a escolher pode servir de legado dos americanos no país, o que levanta dúvidas sobre o organismo político que eles deixam com a saída das tropas em 2012. "Acho que é uma pergunta que terá de ser feita: este sistema vai funcionar para o Iraque, dada a sua história, suas peculiaridades, etc? questiona Ryan Crocker, que foi embaixador no Iraque antes de Christopher Hill. "Não tenho resposta. Mas vamos ter de lidar com essa questão."

O Iraque continua atormentado pelas decisões dos primeiros dias da ocupação em 2003, quando o que predominava era a conveniência e não havia uma programação para o futuro. No Iraque ainda são violentos os debates sobre decisões tomadas pelos EUA: dissolução do Exército iraquiano, expurgo dos membros do Partido Baath de Saddam Hussein e uma ocupação do país em vez de criar um governo iraquiano provisório. Mas talvez o legado que os americanos deixam que terá mais influência no país é o poder que a oposição no exílio e os partidos curdos conquistaram no Iraque a partir de 2003, preenchendo um vazio deixado pelos ataques fulminantes de Saddam contra qualquer dissidência no país.

As intrigas palacianas mal começam a descrever o estilo da elite política desde que ela assumiu o poder, sendo que muitos dos seus integrantes ainda pensam estar numa Bagdá que raramente se espelha nas ruas destroçadas da cidade. Muitos continuam amigos, pelo menos publicamente. Mas os segredos clandestinos do exílio, com seus complôs intermináveis e as manobras fraudulentas ainda moldam suas interações. A meta era a sobrevivência; sob muitos aspectos, ainda é a mesma. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM BAGDÁ

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