Temor reeditado

O medo dos EUA de sofrer ataque nuclear da URSS agora está voltado a redes terroristas como a Al-Qaeda

Scott Shane, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

A ultrassecreta Estimativa de Inteligência Nacional não mediu palavras. Os Estados Unidos enfrentavam um inimigo "sem nenhum escrúpulo de empregar qualquer arma ou tática", disse ela, e armas nucleares infiltradas através de fronteiras porosas ameaçavam devastar cidades americanas. Células "adormecidas", advertia o documento, já poderiam estar dentro dos EUA.

Ao menos foi o que disse a Agencia Central de Inteligência (CIA) ao presidente Harry Truman, em 1951.

Tornou-se sabedoria convencional, repetida pelo presidente Barack Obama na reunião de Cúpula sobre Segurança Nuclear na semana passada, que o perigo da Guerra Fria de ataques com milhares de mísseis nucleares deu lugar a uma nova ameaça: terroristas matando dezenas de milhares de americanos com um artefato nuclear roubado ou improvisado. Um amplo leque de especialistas em segurança concorda em que o terrorismo nuclear pode perfeitamente ser o mais sério perigo que os EUA enfrentam hoje.

Mas isso não é novidade. Aliás, quase desde a invenção da bomba atômica, autoridades ficaram alarmadas com a ameaça de armas nucleares compactas serem contrabandeadas para os EUA por agentes soviéticos e detonadas.

"As autoridades consideram a possibilidade de sabotagem nuclear como a ameaça mais grave de subversão que este país, com suas fronteiras virtualmente não patrulhadas, jamais enfrentou", reportava The New York Times em 1953, dizendo aos leitores que a administração Eisenhower estava se preparando para alertar o público sobre o perigo de "bombas-valises".

Centenas de páginas de documentos dos anos 50 que deixaram de ser secretos, obtidas por The New York Times, contam uma história espantosamente familiar em que agentes comunistas fazem o papel que hoje é preenchido pela Al-Qaeda.

Tanto naquela época quanto agora, investigadores procuraram os agentes que temiam que estivessem nos EUA à espera de ordens de ataque. Também naquela época, o governo gastou milhões para instalar detectores de radiação em aeroportos e portos apesar das dúvidas sobre sua eficácia. (Naquela época, alarmes nucleares falsos foram disparados por mostradores de relógios contendo rádio, que antes ficavam ocultos num colete de mulher.) Não é novo tampouco o temor dos últimos anos sobre material nuclear cruzar a permeável fronteira mexicana. Um memorando de 1953 do FBI advertia que "um sabotador poderia facilmente se passar por um imigrante ilegal mexicano e entrar no país sem ser detectado, carregando uma arma atômica em sua bagagem."

Antes mesmo de a União Soviética haver detonado sua primeira bomba atômica em 1949, autoridades de segurança estudaram a ameaça de armas contrabandeadas. Mas relatórios secretos concluíram que a União Soviética provavelmente só tentaria um ataque desses como um prelúdio de uma guerra total. Um ataque em larga escala, acreditavam especialistas americanos, poderia começar até com a detonação de armas nucleares contrabandeadas para escritórios diplomáticos soviéticos em Nova York e Washington.

A inteligência temia que partes da bomba pudessem ser entregues por malotes diplomáticos, carregadas por passageiros de voos internacionais em suas bagagens ou entregues por barco ou submarino numa praia isolada.

Agentes comunistas já presentes no país poderiam, então, montar, plantar e detonar as armas. "A vigilância de todos os membros e simpatizantes do Partido Comunista é impossível e impraticável pois numericamente eles superam muitas vezes o total da força de Agentes Especiais do FBI", queixava-se em um memorando o então diretor do FBI, J. Edgar Hoover, que estava intensamente concentrado na ameaça de contrabando nuclear. Ele propôs um aumento de seus efetivos para lidar com a situação.

Os temores com o contrabando começaram a diminuir no fim dos anos 50 com o advento dos mísseis balísticos intercontinentais que tornavam a ameaça incomparavelmente maior. Mas, no meio século seguinte, o medo nunca desapareceu por completo.

A maioria dos especialistas em segurança acredita que o foco dos anos recentes em destruir ou proteger material nuclear é bem mais eficaz do que vedar as fronteiras americanas. O esforço global para reduzir a ameaça teve um avanço na reunião de cúpula em Washington, com compromissos de muitos países de destruir ou proteger suprimentos de plutônio e de urânio enriquecido.

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