Temores de países pobres sobre China ameaçam negociações da OMC

Os temores inconfessos de países emdesenvolvimento de serem expostos à competição dos produtoschineses vêm minando os esforços da Organização Mundial doComércio (OMC) com vistas a selar um novo tratado internacionalpara a área, afirmam especialistas. Os países mais pobres, liderados pela Índia e pelo Brasil,criticaram abertamente a Europa e os EUA por não oferecerem,nos quase seis anos de negociações, concessões suficientes emtroca da abertura dos setores industriais daquelas nações. Mas muitos analistas acreditam que a hesitação daseconomias emergentes quanto a diminuir o limite máximo dosimpostos cobrados sobre bens manufaturados -- taxas geralmentemais altas do que as tarifas reais ou "aplicadas" -- advém deum desejo de se protegerem da China, e não dos países ricos. "Esse é, com certeza, o elefante no meio da sala. Elesdesejam preservar sua margem de manobra a fim de elevar astarifas aplicadas contra a China", afirmou Gary Hufbauer,membro do Instituto Peterson de Economia Internacional, deWashington. "Acredito que os ministros do comércio compreendem o queestá realmente em jogo e quais as forças atuantes por detrás dopalco. A preocupação gira em torno da competição dos produtosexportados pela China. Politicamente, cai bem criticar a Europae os EUA," afirmou. David Woods, um analista de questões comerciais eex-porta-voz da OMC, disse que muitos dos paíseslatino-americanos e africanos preocupam-se com a possibilidadede suas indústrias não suportarem a competição dos produtoschineses. "Eles estão pressionando demais nas negociações, de umaforma que, segundo creio, não se previa quando a rodada começouem 2001", disse a respeito da preocupação dos países maispobres com a China. "Eles se mostram bastante nervosos sobre fazer concessõesque acabarão por beneficiar mais a China do que qualquer outropaís", afirmou Woods em uma entrevista concedida por telefonedesde a França. Alguns países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil,estariam de olho em acordos de comércio bilaterais como umaforma de evitar diminuir as proteções alfandegárias contra osprodutos chineses, o que aconteceria no caso de um pacto globalser selado. A China deve beneficiar-se mais do que nenhum outro país deum eventual pacto da OMC responsável por abrir novos mercados emanter aquecido o comércio mundial, e isso em vista de seuenorme potencial exportador. Levando esse fator em conta, Hufbauer disse que o governochinês deveria adotar uma postura mais leniente do que a deoutros países em desenvolvimento a fim de "colocar algo namesa" de negociações da OMC e acabar com a tensão que ameaçahoje um acordo. O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, que pressiona pelaconclusão da rodada de Doha neste ano, rejeitou as sugestões deque a China não participa ativamente das negociações. "A China participa das negociações bastante intensamente.Mas o envolvimento deles não possui as mesmas característicasdo envolvimento de outros", afirmou Lamy a jornalistas no mêspassado. "Eles não convocam uma entrevista coletiva por semana a fimde dizer o que desejam ou que não desejam. Mas, ainda assim,mostram-se bastante ativos."

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