AP Photo/Kamran Jebreili
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‘Temos a maior base americana no exterior’

Embaixador nega que seu país apoie grupos terroristas e afirma que as exportações de óleo e gás não deverão ser afetadas pela crise

Entrevista com

Mohammed Al-Hayki, embaixador do Catar no Brasil

Lu Aiko Otta / Brasília, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2017 | 05h00

O jornalismo da emissora Al-Jazeera está na raiz da decisão de Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Egito, Bahrein e Iêmen de romper relações diplomáticas e fechar fronteiras com o Catar, segundo o embaixador do país no Brasil, Mohammed Al-Hayki. “Querem confiscar a independência política do Catar”, afirmou ele, em entrevista ao Estado. Ele explicou que a emissora, sediada em seu país, é pautada pela liberdade de expressão e pelo jornalismo amparado em fatos. “Isso introduziu fenômenos diferentes, com as quais a região não está acostumada.” 

Quais são as implicações dessa crise e como o Catar está lidando com a situação?

Estamos lidando de uma forma sábia e racional, apesar de os eventos serem sem precedentes e inamistosos. Estamos defendendo o diálogo para resolver o problema entre nós e entendemos que há esforços nesse sentido. 

O Catar é acusado de dar suporte ao terrorismo. Como o país responde a isso?

Isso é absolutamente falso. Esses países nunca nos confrontaram, nem trouxeram provas sólidas para dar suporte a essas afirmações. Temos a maior base americana no exterior, e dessa base partem voos que combatem organizações terroristas na Síria, no Paquistão, no Afeganistão. Na reunião de cúpula que aconteceu em Riad, o presidente dos EUA, (Donald) Trump, abertamente – e isso está documentado – elogiou o papel do Catar no combate ao terrorismo. 

Então, qual é a razão dessa reação tão forte?

Querem confiscar a independência política do Catar. Nós temos a Al-Jazeera, que é a voz da liberdade de expressão na região. Isso introduziu fenômenos diferentes com as quais a região não está acostumada. As notícias são totalmente baseadas em fatos, e as pessoas não estão acostumadas com isso. Essa é a razão número um. 

Há outra razão?

Esses conspiradores estão tramando com o Egito, pois temos uma visão diferente sobre o golpe de Estado militar lá. Sempre apoiamos o governo eleito pelo povo nas urnas. A Al-Jazeera está cobrindo isso. Não podemos pará-la. Ela é uma emissora como a CBS, a CNN, a BBC. Eles querem confiscar nossas decisões políticas e nossa livre expressão. 

Há preocupações que a instabilidade prejudique a produção de óleo e gás. Isso pode ocorrer?

Creio que um dos objetivos da beligerância contra o Catar é, claro, impor pressão política e econômica. Estamos tomando medidas para que isso não aconteça. Toda nossa exportação de óleo e gás é por mar, e a navegação no Golfo é garantida por leis internacionais.

Essa crise tem alguma consequência nas relações entre o Catar e o Brasil?

O Brasil é um país importante, não só na região, mas no cenário internacional também. Eu acredito que, dada essa posição única, o Brasil está provavelmente olhando para essa questão e não creio que esteja feliz. Porque o Brasil é um país que sempre defendeu a resolução de conflitos pelo diálogo, e não pelo recurso a medidas drásticas.

O Catar é um grande comprador de frango e carne do Brasil, e estamos com uma crise envolvendo um exportador de peso, que é a JBS. Houve reflexos?

Não. Na verdade, a JBS é um dos maiores fornecedores de aves para o Catar. Isso é uma questão interna que não tem reflexo nas relações comerciais privadas entre as empresas brasileiras e as do Catar. 

A mediação do Kwait será capaz de restaurar o diálogo na região?

O mais elevado emir do Kwait é um dos líderes sábios da região, e nós certamente apreciamos sua atuação. Ele goza de prestígio não só no Golfo. Então, esperamos que ele tenha sucesso em seus esforços para desarmar essa tensão sem precedentes em nossa região.

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