'Temos de ser melhores que homens'

Major afegã diz que dedicação total ao trabalho é a única forma de ganhar respeito dos demais soldados

ADRIANA CARRANCA , ENVIADA ESPECIAL / CABUL, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h08

As Forças Armadas afegãs têm apenas 47 mulheres. Até a saída das tropas estrangeiras, espera-se que cheguem a 19 mil. Nos 89 quilômetros quadrados da antiga base soviética onde opera hoje o Centro de Treinamento Militar de Cabul, a maior academia militar do Afeganistão, o primeiro regimento feminino fica isolado e protegido por muros altos, com refeitório e dormitórios só para elas. A placa no portão de ferro avisa: Companhia Malalai.

Malalai é uma espécie de Joana D'Arc afegã. De origem pashtum, ela tinha 19 anos quando liderou as tropas de sua etnia à vitória contra os britânicos na Batalha de Maiwand, em 7 de julho de 1880. A função das mulheres era tratar feridos, alimentar e dar água aos soldados. Mas quando os homens começaram a arrefecer diante das tropas ocidentais, após a morte do oficial que levava a bandeira afegã, Malalai teria tomado a frente da tropas usando seu hijab como estandarte.

Assim como Malalaia, Fahima Misbah quer lutar pelo Afeganistão, usa a poesia como antídoto e está apaixonada por um soldado. O sargento Abdul Hadi, de 26 anos, a encontrou no Google, ao buscar detalhes sobre a mulher com fama de durona no comando do primeiro regimento feminino afegão. Encontrou o blog de poesia que ela escreve em dari, idioma do Afeganistão além do pashtun.

Trocaram mensagens pela rede até ele ter coragem de se identificar. "Eu gostei dele", ela diz, um sorriso envergonhado enquanto mostra a foto do jovem noivo em seu celular, os cabelos claros quase loiros e os olhos puxados que caracterizam a etnia hazara. "O problema é esse, a família não está nada feliz com o casamento", conta.

Os hazaras são xiitas enquanto o país é majoritariamente sunita, como a família de Fahima, cujo nome foi dado em homenagem à filha do profeta Maomé. "Meus tios já disseram que irão matá-lo!", ela diz.

Num Afeganistão tribal e dividido, os casamentos entre etnias são tão raros quanto aqueles por amor. Fahima espera romper esse tabu como fez muitas outras vezes.

Após a queda do Taleban, ela voltou à universidade. Terminou o curso de engenharia - era a única mulher na sala -, iniciado antes da guerra civil, e depois estudou literatura. Ao ensinar meninas a ler e escrever às escondidas, durante o regime dos radicais islâmicos, quando foram banidas da escola, apaixonou-se pelos livros.

Fahima é uma exceção. Apenas 6% dos recrutas, homens e mulheres, sabem ler e escrever e os EUA tiveram de incluir 64 horas de aulas de alfabetização no treinamento militar, além de ensinar coisas tão corriqueiras no Ocidente quanto usar o vaso sanitário e o chuveiro - as casas afegãs têm só um buraco no chão e a água vem de poços artesianos comunitários.

Ingressar na Academia Militar é uma forma de ascensão social. O diploma tem peso de bacharelado e o salário inicial é de US$ 185 - parece pouco, mas é quase o dobro da renda média per capita no Afeganistão.

O curso básico dura nove semanas e estão prontos para o front. Nas províncias, podem receber treinamento complementar para missões de combate específicas. Já as mulheres têm no total cinco meses de treino, que exercícios físicos, aulas teóricas e práticas, com pistolas 9mm, fuzis M-16 e velhos Kalashnikov, embora ainda não possam ir a campo. São alocadas em funções como logística e finanças.

Fahima estava no primeiro time de mulheres a ingressar na academia, em 2010. Das 43 da turma, 15 não terminaram o programa. "O que digo para as minhas recrutas é que, como mulheres, não podemos errar. Temos de ser melhor do que os homens, para ter o respeito deles", diz. Muitas recrutas cresceram no exterior, onde as famílias adotaram costumes mais liberais.

Há um projeto-piloto que pretende treiná-las para fazer buscas nas casas, onde as mulheres são mantidas em alas separadas dos homens e a presença de um soldado é considerada uma desonra. A primeira tentativa foi feita na província onde o noivo de Fahima atua, em Paktia, onde a insurgência é forte. No lugar de boas-vindas, elas encontraram muitos problemas. "Recebiam ameaças de outros soldados. Algumas foram atacadas nas casas, tiveram pertences vandalizados por colegas da base.

O maior desafio das mulheres não é a segurança, mas a cultura", diz Fahima. "Muitos afegãos pensam como os taleban". Ao lado da guerra civil, a volta dos radicais é o que elas mais temem.

"O governo e os estrangeiros trouxeram de volta as milícias (antigos comandantes mujaheddin, muitos acomodados no atual governo) e agora negociando com os taleban. Tentam nos convencer de que eles mudaram. Eu não vejo como isso pode ser verdade", diz.

Na cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Chicago, em maio, para definir a estratégia de retirada das forças de coalizão do país até 2014, as mulheres não foram sequer mencionadas, embora a Resolução 1.325 do Conselho de Segurança da ONU reconheça não somente o impacto singular das guerras sobre elas, mas seu papel fundamental na construção de Estados pós-conflito.

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