'Temos esquerda e direita à moda uruguaia'

Para autor, que publicou livros sobre a história do Uruguai, lados opostos na política do país evitam radicalização de posições

MONTEVIDÉU, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2014 | 02h03

O escritor e jornalista Leonardo Haberkorn, de 50 anos, autor de Histórias Tupamaras - Novos depoimentos sobre os mitos do MLN e Milicos e Tupas, entre outros livros sobre a história uruguaia, disse ao Estado que os governos do ex-presidente Tabaré Vázquez e de José Mujica, ambos da Frente Ampla, decepcionaram setores de esquerda pela "moderação" de suas gestões.

Para Haberkorn a esquerda uruguaia tem pouco a ver com o "chavismo da Venezuela ou com o Movimento ao Socialismo" de Evo Morales, pois nenhum dos dois presidentes uruguaios mostrou "radicalismo".

Além disso, no Uruguai, nenhum partido quer assumir o rótulo de ser de direta. Luis Lacalle Pou, candidato pelo Partido Nacional, por exemplo, tem em sua equipe de campanha técnicos que trabalharam nos governo da Frente Ampla (FA). A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual é o perfil ideológico da Frente Ampla?

A Frente Ampla é uma coalizão, como diz o próprio nome, que é muito ampla, incluindo grupos social-democratas e democratas-cristãos, além do Partido Comunista uruguaio, que ainda não ficou sabendo da queda do Muro de Berlim. Dentro da FA também há ex-guerrilheiros tupamaros. Alguns cientistas políticos a definem como uma coalizão de centro-esquerda que tenta buscar consenso dentro desse variado leque. Essa esquerda uruguaia, porém, tem pouco a ver com o chavismo da Venezuela ou com Movimento ao Socialismo, partido de Evo Morales na Bolívia.

Como ela se diferencia dos casos de Bolívia e Venezuela?

A FA mudou desde sua criação. Era um partido de classe média universitária, uma esquerda intelectual, e não tinha nada a ver com Evo ou Chávez. A FA incorporou esse tipo de discurso. No entanto, na prática, nem Vázquez ou o próprio Mujica tiveram os radicalismos da Venezuela. Morales, por exemplo, possui um discurso contra os homossexuais. A esquerda aqui não aceitaria um líder assim dentro do Uruguai. Além disso, a FA teve respeito pela liberdade de imprensa, ao contrário de governos de outros países na América do Sul. E nem Vázquez nem Mujica tentaram dividir o pais e antagonizar setores da sociedade. Essas coisas que acontecem na Argentina com o kirchnerismo ou com o chavismo na Venezuela não são bem vistas pelos uruguaios

O presidente Mujica decepcionou setores da esquerda?

Entre 2005 e 2010, Vázquez fez um governo de esquerda moderada. Mujica chegou ao poder em 2010 prometendo uma guinada à esquerda, mas muitas pessoas sentem que isso não ocorreu. Mujica fez as leis do aborto, de casamento entre pessoas do mesmo sexo e da maconha. No entanto, não são os assuntos que mais afetam a vida do trabalhador, como é o caso do salário e da qualidade do emprego. Aquelas são questões na área de direitos. A política econômica continua a mesma. Por isso, a FA está sofrendo com a fuga de votos de pessoas desencantadas. O partido mais à esquerda da FA, a União Popular, pela primeira vez pode chegar ao Parlamento. E também há chances de que o Partido Ecologista Radical Independente consiga eleger parlamentares. Este é um setor da esquerda que questiona toda a industrialização feita durante os governos de Vázquez e Mujica na área de celulose e outros projetos com custo ambiental.

Existe uma direita uruguaia?

Sim, existe, embora no Uruguai ninguém diga que é de direita. Os partidos tradicionais foram oscilando em posições mais ou menos conservadoras, pois possuem alas conservadoras e alas progressistas. O candidato do Partido Nacional, Luis Lacalle Pou, é rotulado como direita. No entanto, ele colocou pessoas em sua equipe que trabalharam como técnicos nos governos da Frente Ampla. O Partido Colorado fez leis sociais de vanguarda no começo do século 20 - separou a Igreja do Estado, entre outras coisas. No entanto, deu uma guinada à direita nas últimas décadas. Os colorados sempre tiveram duas alas: a "Batllista", social-democrata e majoritária por muito tempo, e a "Riverista", conservadora. Hoje, conservadores têm a maioria dentro do partido, mas, de forma geral, no Uruguai existe a ideia de que o Estado tem de ajudar os pobres e deve propiciar educação pública e saúde. Os partidos podem, ocasionalmente, criticar problemas dos serviços estatais, mas ninguém propõe privatizações. O país tem uma esquerda e uma direita peculiares comparadas com outras na região. É a política à moda uruguaia. / A.P.

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