AFP / Patrick KOVARIK
AFP / Patrick KOVARIK

Tempos difíceis na UE

É improvável que Merkel volte ao trono, mas com a chanceler nunca se pode dizer nunca

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2017 | 05h00

Angela Merkel caiu por terra. Não é uma imagem banal. Nos seus 12 anos de governo, a chanceler sempre navegou mais nas ondas da vitória que nas ruínas da derrota. Sim, de tempos em tempos, ela tremia, mas negociava e continuava a caminhada. Agora, após as eleições legislativas, vemos outra imagem: a de uma Angela abatida com as discussões que vem tendo com os partidos para uma coalizão. Ela já admitiu o impasse. E o chefe de um dos partidos, o Liberal e Democrata (FDP), afirmou: “É melhor não governar que governar mal”. 

É o fim deMerkel? Duas soluções são imagináveis. A primeira seria Merkel, que ainda ontem governava com os socialistas do SPD, conseguir trazer esse pessoal de volta e, graças a ele, se salvar do afogamento. Mas o SPD renovou sua recusa em se associar novamente a Merkel. Segunda possibilidade: o presidente alemão convocar novas eleições legislativas. Merkel, após muita hesitação, teria se declarado pronta para essa solução. 

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Mas convocar novas eleições é um procedimento demorado e complicado. Até lá, Merkel continuará apenas administrando os assuntos correntes, um exercício ingrato que tem todos os riscos de desgastar ainda mais sua popularidade. Se essa hipótese não se concretizar, ou se Merkel confirmar sua atual desconfiança nelas, qual será o futuro da Alemanha e da União Europeia? A tempestade.

Para a UE, a exclusão de Merkel seria um desastre. Antes, a poderosa Alemanha, puxando atrás de si sua protegida França, formavam o motor da Europa. Se Merkel cair, esse motor entrará em pane. E não se vislumbra outro governo alemão que venha a religá-lo. Os socialistas, que poderiam retomar a chama europeia, estão fragilizados e cansados.

Os outros partidos, entre eles o FDP, não têm em seu DNA a fibra europeia. A generosidade de Merkel, que há dois anos acolheu 900 mil imigrantes, sempre pareceu um gesto enlouquecido para as democracias liberais. O medo então não é de um enfraquecimento do motor, mas de uma pane seca. 

Para os dirigentes da UE, a situação de Merkel é ainda mais consternadora, já que esperavam, ao contrário, que ventos frescos e suaves soprassem sobre a Europa. Esses ventos deveriam vir de Paris. O novo presidente francês, Emmanuel Macron, é decidida e apaixonadamente pró-europeu (o que hoje é uma espécie em extinção). 

Bruxelas contava que o motor franco-alemão parasse de ratear e pudesse, graças ao dinamismo de Macron, voltar a funcionar como um Fórmula 1, levando o trem europeu para um amanhã radioso. Previa-se que Merkel, considerando-se os maus resultados das eleições, não tivesse a mesma força de antes, mas que ainda lhe restasse alguma importância. No lugar do velho motor, teríamos um novo, com a parte francesa tinindo de nova, nas mãos de Macron, um piloto jovem e eficaz. 

As últimas notícias foram uma ducha de água fria. Admitíamos o enfraquecimento de Merkel, mas não sua queda. Sem ela, não há mais motor franco-alemão, nem mesmo motor. Já se via Macron avançando suavemente para a posição de líder da UE. Mas, sem a ajuda da Alemanha, como poderia ele realizar essa reconstrução de Hércules? 

Aí vai um esboço do desastre europeu. A Grã-Bretanha abandonou o barco. O euroceticismo cresceu. Regiões exigem independência. O populismo se prolifera. No Leste Europeu, Polônia e Hungria combatem a UE. Esse é o trem abalado que Bruxelas deve reconduzir aos trilhos. Mas com que ajuda? Um milagre seria Merkel voltar ao trono. É improvável, mas com Merkel nunca se pode dizer nunca. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

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