Tempos difíceis para os diplomatas dos EUA

Ataques contra alvos americanos no mundo islâmico provam que a diplomacia ainda é fundamental e mostram que Romney não está preparado para ocupar a Casa Branca

O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h05

A história mal começou e os detalhes ainda não são conhecidos. Não sabemos se ela se desenrolará como uma tragédia isolada ou se foi a primeira explosão de uma crise monumental. Mas, depois do violento ataque à Embaixada dos EUA no Egito, da morte do embaixador americano na Líbia e de outros três integrantes da sua equipe em Benghazi, podemos destacar algumas lições.

Primeiro, a diplomacia continua sendo fundamental, talvez mais do que todas as outras coisas. Hillary Clinton disse na quarta-feira, em sua mais eloquente entrevista à imprensa como secretária de Estado dos EUA, que cidadãos e forças de segurança da Líbia tentaram dominar o grupo de militantes que incendiou o consulado de Benghazi, procuraram proteger muitos sobreviventes e levaram o embaixador John Christopher Stevens para um hospital próximo. Fizeram isto, em parte, porque conheciam Stevens.

Um ano atrás, como emissário americano, ele ajudara os rebeldes líbios - que hoje fazem parte do governo democrático do país - em sua luta para derrubar Muamar Kadafi. Desde então, era recebido como amigo em suas viagens pelo país.

Hillary disse que as forças de segurança egípcias ajudaram os guardas americanos a repelir os invasores da embaixada no Cairo antes que a situação ficasse fora de controle. Embora ela não tenha mencionado isto, o presidente Mohamed Morsi deve saber que o destino do seu país e, portanto, suas próprias perspectivas políticas, dependem da ajuda e dos investimentos externos.

Poucos dias antes, Morsi se encontrara com empresários americanos e procurou lhes garantir que o clima para os investimentos era seguro. Ninguém acreditará nessa mensagem se ele não garantir a segurança das embaixadas estrangeiras em solo egípcio - ou processar os que violam sua soberania.

Em segundo lugar, o que estamos vendo é talvez um conflito não apenas entre o Ocidente e o Islã radical, mas também entre os diferentes elementos no interior do islamismo. Numa medida prudente, o presidente Barack Obama enviou 200 fuzileiros navais para reforçar a segurança em outras embaixadas da região. Mas, além disso, ele e seus assessores agora não duvidarão de que, no longo prazo, é importante que Morsi, os líderes da Líbia e pelo menos alguns outros destacados porta-vozes muçulmanos em toda a região denunciem os mais violentos entre esses manifestantes - e denunciem estratégia de ataque às embaixadas e assassinatos de diplomatas como uma prática ultrapassada que infringe os seus princípios e não tem mais lugar na política do Oriente Médio contemporâneo.

Convencê-los a fazer isto será uma tarefa delicada e exigirá uma mescla bem dosada de pressão (por exemplo, o fim dos empréstimos do Fundo Monetário Internacional ou dos investimentos privados caso a violência não seja controlada) e incentivos (dinheiro que eles poderão receber se adotarem a posição certa).

A esse respeito, um importante obstáculo está no fato de que a política interna define todos os elementos desse quadro. Morsi e os outros líderes muçulmanos não têm muito espaço de manobra. Os militantes constituem um segmento do seu eleitorado.

Muitos outros se oporão à ação deles, mas considerarão ainda mais repulsivo o filme americano ofensivo ao Islã que inspirou o protesto.

Diferenças culturais. Morsi emitiu um comunicado exigindo que o governo americano processe os autores do filme. Obviamente, isto não ocorrerá. É muito difícil convencer os estrangeiros, principalmente os que cresceram em regimes autoritários, de que os EUA não são uma sociedade monolítica. Eles consideram inacreditável que alguns idiotas e ideólogos tenham podido fazer e distribuir um filme sem a aprovação do governo.

Uma tarefa futura será convencer esses líderes de que nos EUA as coisas funcionam assim mesmo, que os americanos prezam a liberdade de expressão até quando se trata de um discurso estúpido - embora manifestando alguma solidariedade por suas preocupações - e compreendendo que não gostarão de adotar o mesmo sistema.

Trata-se de uma tarefa de longo prazo, que exige a integração de suas sociedades no resto do mundo em termos econômicos, sociais e, até certo ponto, culturais - e precisará se respaldar nisso. É exatamente a essa integração que os militantes se opõem mais energicamente, o que constitui o principal desafio. Se os acontecimentos desses últimos dias se revelarem fundamentais será porque obrigaram os líderes muçulmanos a escolher o caminho que pretendem seguir.

Finalmente, em terceiro lugar, esses eventos enfatizaram até que ponto o candidato republicano à presidência dos EUA, Mitt Romney, está surpreendentemente despreparado - e quão pouco ele conhece a respeito da tarefa de um presidente ou, no caso, o que significa ocupar um posto de líder nacional na política americana.

Romney emitiu um comunicado que condenou não apenas os que atacaram as embaixadas, mas também o governo Obama por simpatizar com esses elementos. O presidente e sua equipe jamais fizeram isso.

Brevemente, pareceu que o republicano tivesse confundido a cronologia dos acontecimentos. Ele criticou a embaixada americana no Cairo por divulgar uma mensagem deplorando "os persistentes esforços de indivíduos equivocados em ferir os sentimentos religiosos dos muçulmanos".

Romney qualificou essa declaração como um "pedido de desculpas" chocante para os "princípios americanos" de liberdade de expressão e um gesto de apaziguamento diante de um ataque à soberania americana.

O que Romney ou sua equipe talvez não soubessem naquele momento é que a embaixada divulgou esse apelo seis horas antes de os manifestantes atacarem os muros do complexo. Depois que os muros cederam, a embaixada emitiu um documento em parte modificado, condenando o ataque.

Entretanto, na revisão, o texto reiterava o sentimento da declaração original - afirmação que os porta-vozes de Obama desmentiram, afirmando que ela ocorreu sem a autorização de Washington. Depois que esses fatos foram explicados - e com a notícia da morte de Stevens, da qual o republicano não tinha sido informado -, Romney poderia ter recuado.

Desgaste. Mas, ao contrário, o rival de Obama pôs mais lenha na fogueira. Convocou uma entrevista coletiva - minutos antes do esperado discurso do presidente Obama - e reforçou seus ataques. Pior ainda, falou com um leve sorriso nos lábios, como se não conseguisse disfarçar o prazer de marcar alguns pontos a seu favor. Quando um repórter perguntou o que ele teria feito de diferente se fosse presidente, Romney não encontrou uma resposta pronta. Em vez disso, reafirmou que a embaixada de Obama estava "se desculpando pelos princípios americanos" e, quando essas coisas ocorrem, "as pessoas não medem as palavras".

Nenhuma outra personalidade republicana de destaque, nem mesmo quem já criticou Obama energicamente no passado, disse o que pensava contra o presidente. Os senadores John McCain e Mitch McConnell, assim como o presidente da Câmara, John Boehner, pegaram o microfone para condenar os ataques, lamentar as mortes e exaltar a união dos americanos na busca por justiça. Esses políticos sabem - e Romney aparentemente desconhece - que, nessas crises, a coisa mais apropriada a fazer é se unir em torno da bandeira nacional. Por ironia, também é a atitude política mais inteligente.

Imaginem se Romney telefonasse a Obama, perguntando se poderia ajudar no momento de crise, se oferecendo para estar a seu lado numa entrevista coletiva para demonstrar que, quando cidadãos americanos estão em perigo, a política passa para segundo plano - depois, certamente sua equipe divulgaria que ele tinha feito essas coisas, fazendo com que ele parecesse nobre, e Obama, mesquinho, caso recusasse sua ajuda.

Mas Romney não é dado a essas coisas. Ele viu um furo na armadura de Obama, uma abertura para um ataque político contra a força e a liderança do presidente e, então, correu para as barricadas sem um instante de reflexão, um resquício de preocupação com a propriedade do seu gesto ou um mínimo de estratégia inteligente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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