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Tempos ruins na Europa

Trump já indicou em suas declarações que, para ele, o continente não representa nada

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2017 | 05h00

Tempos ruins para a Europa. A primeira-ministra britânica, Theresa May, estabeleceu o calendário para a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), que deverá se efetivar daqui a dois anos, em torno de março de 2019.

Na véspera, a Europa recebeu de frente os raios lançados contra ela por Donald Trump. Com a violência que lhe é peculiar, Trump anunciou que um novo período da história se abre. Até a chegada dele, desde 1945 os EUA mantiveram relações de confiança, harmoniosas, com a Europa e a UE. Trump agora joga a bola e envia para o ar todos os pinos. Na manhã de ontem os europeus avaliavam os estragos: são enormes.

“Para os EUA não tem nenhuma importância e não me interessa se os europeus estão unidos ou não”, disse Trump. Ou seja, a Europa não representa nada. É em outro eixo que se decide o destino do mundo: nos EUA, na Rússia e na Ásia, mesmo que Trump desconfie da China.

Um único país é beneficiado, o Reino Unido, que teve a boa ideia de descer a tempo do trem. Em Londres, regozijo. Mas as pessoas também procuram se precaver. Theresa May não gostou do fato de Trump a ter chamado só depois de conversar com os presidentes da Índia, do Egito e até da Irlanda.

Pior: Trump, com essa mania de decidir no lugar dos outros, disse que gostaria muito que Londres enviasse como embaixador a Washington o dirigente do partido de extrema direita britânico Ukip, Nigel Farage. Mas no final tudo se acertou: hoje Trump adora Theresa May e assinará um acordo comercial excelente com ela. Quanto ao Reino Unido, é uma maravilha, ele diz.

Vale lembrar que May não poupou esforços para seduzir o americano. Não hesitou em trair a si mesma. Isso a propósito de Israel. No final de dezembro, Londres e Egito apresentaram a resolução 2234 ao Conselho de Segurança da ONU exigindo um fim das colônias israelenses na Cisjordânia. Alguns dias depois, Londres “mudou de opinião”. Os britânicos se atracaram com o secretário de Estado de Obama que criticou o governo de Israel.

Enfim, na conferência organizada pela França sobre o Oriente Médio na semana passada, em Paris, o Reino Unido foi o único dos 70 países a não assinar a declaração final. Londres rejeitou validar as decisões da reunião e chegou mesmo a arrastar para seu lado quatro países europeus – Hungria, Croácia, Bulgária e República Checa. Uma reviravolta total em 15 dias. Trump não pode se queixar.

Mas quando queremos seduzir não poupamos os meios. Theresa também enviou carta a Trump reproduzindo a mensagem enviada aos EUA pelo premiê Winston Churchill em 1941, logo após o ataque japonês a Pearl Harbor. A mensagem exprimia “o sentimento de unidade e associação fraterna entre Reino Unido e EUA”. Theresa fez o seguinte comentário: “hoje, o sentimento é tão real quanto no passado”.

Assim é, às vezes, a história: teimosa como uma mula. De tempos em tempos, ela segue um caminho tortuoso, repousa perto de um lago, se distrai em um campo, dá uma olhada no vizinho, mas, irresistivelmente, retorna a seus impulsos primitivos, quase ao seu inconsciente. Para o Reino Unido, esse impulso significa “outros horizontes”, ou seja, os EUA. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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