AFP PHOTO / NICHOLAS KAMM
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Tendência é piorar

Povo tende a atribuir melhora na sua situação pessoal ao seu próprio esforço 

Paul Krugman / The New York Times , O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2017 | 05h00

Se os EUA tivessem um regime parlamentarista, Donald Trump – que passou o primeiro dia no cargo tendo acessos de cólera, clamando contra notícias corretas de que uma pequena multidão assistiu a sua posse – já estaria enfrentando um voto de confiança. Mas não é o caso, e teremos de sobreviver a quatro anos nessa situação.

E como ele reagirá aos dados decepcionantes sobre fatos que realmente importam?

Em seu escabrosamente sensacionalista discurso de posse, Trump retratou um país em situação muito precária – como “carnificina americana”. A nação na verdade não parece nada disso: tem muitos problemas, mas as coisas podem se agravar. Na verdade, provavelmente se agravarão. Como um homem que evidentemente não consegue lidar com um pequeno arranhão no seu ego vai enfrentar a questão?

Falemos dos problemas previsíveis.

Em primeiro lugar, a economia. Ouvindo Trump, você pensaria que o país está em meio a uma depressão total, com “fábricas enferrujadas como lápides espalhadas por toda a paisagem da nossa nação”. O emprego no setor de manufatura na verdade caiu desde 2000, mas no geral foi registrado um aumento e o número de desempregados atingiu um patamar muito baixo pelos padrões históricos. E não é só: os salários subiram e o número cada vez maior de americanos confiantes o bastante a ponto de deixarem seu emprego sugere uma economia próxima do pleno emprego.

Isso significa que a taxa de desemprego provavelmente não cairá muito mais além desse ponto, portanto, mesmo com boas medidas de caráter político e sorte, a criação de vagas será mais lenta do que nos anos Obama. E como coisas ruins podem ocorrer, existe uma forte probabilidade de que o número de desempregados seja muito maior daqui a quatro anos.

Os déficits orçamentários de Trump provavelmente ampliarão o déficit comercial, levando o nível de emprego, particularmente no setor de manufatura, a diminuir, não aumentar.

Uma segunda frente em que a situação certamente se agravará é a da saúde. Com o Obamacare a porcentagem de americanos sem seguro de saúde caiu drasticamente. Revogar a lei sancionada por Obama é um recuo – foram 18 milhões de pessoas seguradas só no primeiro ano, possivelmente aumentando para mais de 30 milhões. E os republicanos que passaram sete anos sem conseguir apresentar um plano substituto não o farão em algumas semanas, talvez nunca.

Em terceiro lugar, o crime, e o rumo que tomará no futuro não está claro. A visão de Trump de um país assolado pelo “crime, gangues e drogas” é pura fantasia. Os crimes violentos diminuíram apesar de um recente aumento de assassinatos em algumas cidades. O governo Trump não conseguirá pacificar as zonas de guerra urbanas porque elas não existem.

Então, como ele enfrentará as más notícias sobre desemprego em aumento, cobertura para a saúde em queda e uma redução muito pequena no número de crimes, se ocorrer? Obviamente ele negará a realidade. Mas seus partidários concordarão com suas fantasias?

É possível. Afinal, eles ocultaram todas as notícias boas da era Obama. Dois terços dos eleitores de Trump acreditam, falsamente, que a taxa de desemprego subiu no governo Obama (três quartos dos eleitores de Trump acham que George Soros está pagando as pessoas para protestar contra o presidente). Muitos acreditam que a taxa de crimes vem aumentando, embora ela esteja caindo.

Então, talvez eles ocultem as más notícias dos anos Trump.

As pessoas tendem a atribuir melhoras na sua situação pessoal a seus próprios esforços. Muitos eleitores que conseguiram um emprego nos últimos oito anos acreditam que foi graças a eles, não às políticas de Obama. Eles se culparão, e não a Trump, pela perda do emprego e do seu plano de saúde? Improvável.

Trump fez grandes promessas. Portanto, o risco de uma desilusão é particularmente alto. Reagirá a más notícias aceitando a responsabilidade e tentando agir melhor? Renunciará à sua fortuna e entrará para um mosteiro? Não, o inseguro “egomaníaco chefe” com certeza rechaçará as incômodas verdades e execrará a mídia por reportá-las. E é muito provável que tentará usar seu poder para impor demissões na imprensa.

Seriamente, como você acha que o homem que comparou a CIA aos nazistas reagirá quando o Departamento de Estatísticas do Trabalho informar um aumento do desemprego ou um declínio de vagas no setor de manufatura? O acesso de cólera do fim de semana passado foi ruim. Mas muitos acessos de cólera piores virão. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA

 

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