Tenham paciência com o Iraque

País amadureceu e tem instituições mais democráticas

NURI, AL-MALIKI, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2013 | 02h12

Imaginem como os americanos reagiriam se uma organização terrorista operasse em seu território matando dezenas de pessoas e aleijando centenas de outras, todas as semanas. Para os iraquianos, essa não é uma hipótese. A Al-Qaeda e suas afiliadas realizam no Iraque uma campanha terrorista contra o nosso povo.

Esses terroristas não são apenas inimigos do Iraque. São também inimigos dos EUA. É por isso que, quando encontrar o presidente Obama na sexta-feira, pretendo propor uma relação de segurança mais profunda entre os EUA e o Iraque no combate ao terrorismo e na solução de problemas regionais de segurança mais graves, como o conflito na Síria e a ameaça que a proliferação de armas nucleares, químicas e biológicas poderia representar para a região.

Faz quase dois anos desde que as tropas americanas se retiraram do Iraque. E apesar da ameaça terrorista que enfrentamos, não pedimos o envio de mais soldados americanos. Ao contrário, queremos urgentemente equipar as nossas próprias forças com o armamento de que elas precisam para combater o terrorismo, incluindo helicópteros e outros aviões militares para garantir a segurança das nossas fronteiras e proteger o nosso povo. É difícil acreditar, mas o Iraque não tem um único jato de combate para proteger seu espaço aéreo.

Os EUA são nossos parceiros na área de segurança, portanto trabalhamos com o governo e as empresas de defesa americanas para adquirirmos o equipamento imprescindível. Trata-se de uma ajuda que permitiria consolidar um marco na nossa estratégia de segurança. Os iraquianos são muito gratos pelos enormes sacrifícios que os americanos fizeram para o nosso país. Mas hoje o Iraque não é mais um protetorado, é um parceiro num "relacionamento normal com base em interesses mútuos e no mútuo respeito", como o definiu o presidente Obama.

Esses interesses mútuos incluem combate ao terrorismo e solução do conflito na Síria. A guerra na Síria tornou-se um ímã que atrai extremistas sectários e terroristas de várias partes do mundo, agrupando-os ao nosso redor, e forçando as nossas fronteiras extremamente porosas. Nós não queremos que a Síria ou o Iraque se tornem bases para operações da Al-Qaeda, nem os EUA.

Embora o mundo considere a Síria uma tragédia humanitária, nós também a vemos como uma ameaça imediata para a segurança do nosso país. A Al-Qaeda está empenhada numa nova campanha de fomento da violência sectária e trabalha para dividir o nosso povo. Não permitiremos que isso volte a acontecer.

Como não queremos que a Síria continue atraindo violentos extremistas, e muito menos que cause uma conflagração regional, nossa principal prioridade é acabar com o derramamento de sangue e conseguir um acordo negociado. O governo iraquiano está decidido a não permitir que os seus cidadãos armem qualquer uma das partes do conflito sírio. Seu objetivo é também impedir que o território, as vias fluviais e mesmo o espaço aéreo sejam usados por qualquer entidade externa com a finalidade de alimentar o conflito na Síria. Mas, com muitos vizinhos mais bem equipados e nenhuma força aérea ou defesas aéreas, nossa capacidade de respaldar a nossa estratégia é limitada. Essa é uma das razões pelas quais procuramos urgentemente aprimorar nossa capacidade de defesa aérea.

Aproximação. Depois de algumas divergências iniciais, as estratégias americana e iraquiana em relação à Síria conseguiram se harmonizar. Estamos satisfeitos com o acordo de eliminação das armas químicas sírias e ansiosos por apoiá-la de todas as maneiras ao nosso alcance. Nenhum país seria mais ameaçado do que o Iraque se essas terríveis armas caíssem nas mãos de terroristas.

Na nossa região, o que nos preocupa não são apenas as armas químicas, mas todas as armas de destruição em massa. Somos totalmente favoráveis à transformação gradativa do Oriente Médio numa zona de exclusão de armas nucleares. E para enfatizar o nosso empenho na consecução desse objetivo, o Iraque tornou-se recentemente o 16.º país a ratificar o Tratado de Proibição Total dos Testes Nucleares.

Combatendo o extremismo violento, lutamos para criar e aprimorar a nossa democracia. Os iraquianos compreendem e respeitam a diferença entre ataques terroristas e protestos pacíficos. Embora resista aos terroristas e às milícias, o nosso governo reage aos manifestantes pacíficos empreendendo um amplo diálogo mediante a formação de comitês de coordenação de alto nível, e estamos trabalhando para atender às demandas dos manifestantes. Desde o fim da tirania de Saddam Hussein, em 2003, realizamos pelo menos cinco eleições livres, cimentando a nossa democracia e criando um governo de coalizão que representa todas as regiões e todos os grupos religiosos.

A resposta ao terrorismo é essencialmente o progresso. Nós temos uma das economias que mais crescem no mundo; ela apresentou uma expansão de 9,6% em 2011 e de 10,5% em 2012. Nossa produção de petróleo aumentou 50% desde 2005 e até 2030 deveremos emergir como o segundo maior exportador de energia do mundo. Estamos reinvestindo nossas receitas energéticas na reconstrução da infraestrutura e recuperando a educação e a saúde. Quando reconstruirmos nossa economia, os iraquianos poderão tornar-se parceiros promissores de companhias americanas em todos esses campos.

O Iraque amadureceu e se tornou um país com instituições democráticas. Mas nós precisamos de mais formação, educação, prática - e de paciência. Estamos no caminho da segurança, da democracia e da prosperidade. Embora ainda tenhamos uma longa estrada a percorrer, nosso desejo é percorrê-la com os EUA. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PRIMEIRO-MINISTRO DO IRAQUE

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