Tenho arma, mas a NRA não me representa

Os americanos ainda não sabem como lidar com uma crise de saúde pública da qual eles mesmo são responsáveis

Colbert I. King, O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2015 | 03h00

Ganhávamos armas no Natal. Meu irmão e eu também ganhávamos armas durante o ano se conseguíssemos fazer uma boa troca no bairro ou se papai encontrasse um bom negócio. As armas eram de brinquedo. 

Em uma memorável manhã de Natal, cada um de nós encontrou coldres duplos para saque rápido sob a árvore. Em outro Natal, ganhamos imitações perfeitas de rifles do Exército, o que fez de nós os garotos mais invejados da Zona Oeste.

Nossas infâncias foram repletas de brincadeiras de polícia e ladrão que acabavam com um dos lados morto ou numa acalorada discussão: “Eu o acertei primeiro” . “Não, fui eu!” Brincávamos de Exército, fingindo ser soldados americanos combatendo um inimigo imaginário do exterior. 

Aos sábados, íamos à matinê do cinema local, com os olhos grudados na tela assistindo filmes de nomes como Durango Kid, Red Ryder, Roy Rogers, Hopalong Cassidy, Johnny Mack Brown, Sunset Carson (que guardava o revólver com a coronha para frente) e Eddie Dean, atirando e matando malfeitores sem sinal de remorso nem suar a camisa. Armas de mentira e filmes de faroeste eram parte da infância.

Vários anos mais tarde, passei para as armas reais, entrando para o centro de treinamento para me tornar um oficial da reserva, que envolveu um curso de verão usando armas de fogo com munição real. Algum tempo depois disso, meu mundo de armas reais foi ampliado para incluir os modelos .38 Special e Magnum .357 como treinamento para minhas funções de proteção como agente especial do Departamento de Estado.

Armamentos. Desde 1988, sou um proprietário de armas registrado na capital e, portanto, estou entre os 22% dos americanos que possuem armas, de acordo com a Newsweek. Em 2013, as pesquisas do Pew Research Center indicaram que os proprietários de armas correspondiam a 24% da população americana.

Na verdade, ninguém sabe ao certo quantos são os proprietários de armas nos EUA. Da mesma maneira, não há um número preciso para a quantidade de armas no país. O Pew cita várias estimativas, chegando a um total entre 270 milhões e 310 milhões. Uma coisa é certa: temos a maior proporção de assassinatos ligados a armas de fogo entre os países desenvolvidos. 

Os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças contaram 33.636 mortes ligadas a armas de fogo em 2013. E como informou o Washington Post, o número de mortos por armas da polícia no momento da prisão é desconhecido.

Até o momento, já tivemos em 2015 mais de 40 mil incidentes de violência com armas, resultando em mais de 10 mil mortos e 20 mil feridos, de acordo com a ONG Gun Violence Archive. Entre esses números, foram mais de 2 mil adolescentes com idades entre 12 e 17 anos mortos ou feridos, bem como 560 crianças com menos de 12 anos. E o ano ainda não acabou. O que fazer, o que fazer?

Criminalidade. A violência com armas de fogo é um flagelo nos EUA. Mas de quais episódios de violência estamos falando? O único tipo que parece provocar comoção é o dos tiroteios em massa ocorridos em Roseburg, no Estado do Oregon, na Escola Primária Sandy Hook, em Newton, em Connecticut, em um cinema de Aurora, no Colorado, em Fort Hood, no Texas, e em Blacksburg, na Virgínia.

São esses os casos que chamam a atenção e suscitam apelos por reformas nas leis de porte de arma. A Associação Nacional do Rifle (NRA, em inglês) não me representa como proprietário de arma. Que venham os controles mais rigorosos.

As verificações de antecedentes precisam ser aprofundadas para todas as vendas de armas, fechando também as brechas jurídicas nas feiras de armamentos. É preciso uma dura repressão contra intermediários “repassadores” que adquirem armas legalmente apenas para revendê-las a pessoas proibidas de comprá-las. 

Por que os adeptos da caça - ou os lares, por sinal - precisam de armas de assalto usadas pelo Exército? Este proprietário de armas diz que estas deveriam ser banidas. E, se serviços de atendimento em saúde mental puderem ajudar a resolver o problema, que sejam oferecidos.

No entanto, a resposta não deveria se limitar aos assassinatos em massa, que não correspondem ao maior número de mortes. Desde o início do ano, Washington teve 120 homicídios - são 11 vezes mais mortes do que em Roseburg e mais de quatro vezes o número de vítimas de Sandy Hook.

Desafio. Infelizmente, essas mortes individuais parecem atrair apenas brevemente a atenção da mídia, depois das notícias a respeito do clima e do trânsito. Mas, seja na capital dos EUA, em Chicago, em Baltimore ou num câmpus universitário na Costa Oeste, estamos falando numa predisposição em apertar o gatilho contra os indefesos e tomar a vida de outra pessoa.

Felizmente, a maioria de nós sente calafrios diante da ideia. O mesmo não é verdadeiro para o assassino em massa, o ladrão de carros armado e o membro da gangue. Será que algum deles é menos doente do que os demais?

Suas motivações podem ser diferentes. As consequências de suas ações não são. Trata-se de limites extremos da cultura de armas que permeia nosso tecido social. É aí que jaz o desafio. 

É preciso ir mais fundo na violência cometida com armas. Sabemos como e com quais armas os assassinos matam. Precisamos saber mais a respeito do porquê e de como lidar com esta crise de saúde pública, que é obra nossa. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

* É COLUNISTA

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