'Tenho arrependimentos pessoais', diz Aung San Suu Kyi

Líder pró-democracia birmanesa fala sobre difícil escolha de colocar seu país à frente de sua família.

Eamonn Walsh, BBC

23 de setembro de 2012 | 19h06

Aung San Suu Kyi, a líder pró-democracia birmanesa e Nobel da Paz, passou a maior parte das últimas duas décadas em prisão domiciliar em Yangon - maior cidade e ex-capital de Mianmar (ex-Birmânia) -, a milhares de quilômetros de seu marido e seus dois filhos, na Grã-Bretanha.

Ela raras vezes falou sobre a dor dessa separação.

"Eu acho que ela é genuinamente forte. E, você sabe, mesmo se ela estiver triste com algo, ela sabe que tem de ir adiante com suas coisas. Ela não vai perder tempo chorando", diz Kim Aris, filho de Aung San Suu Kyi.

Todos os dias por quase 20 anos, de Aung San Suu Kyi se viu diante de uma escolha - permanecer prisioneira em sua casa em Yangon ou reencontrar sua família em Oxford, na Grã-Bretanha, sabendo que, se escolhesse sair de Mianmar, talvez nunca mais a deixassem voltar e liderar seu povo.

"É claro que eu lamento não ter podido passar tempo com a minha família", diz Suu Kyi.

"Qualquer um quer estar junto com a sua família. É por isso que existem as famílias. É claro que eu tenho arrependimentos sobre isso. Arrependimentos pessoais", afirma.

"Eu gostaria de ter estado junto com a minha família. Eu gostaria de ter visto meus filhos crescerem. Mas eu não tenho dúvidas sobre o fato de que eu tinha de escolher ficar com o meu povo aqui."

Destino

Suu Kyi é filha do herói da independência de Mianmar, o general Aung San, assassinado quando ela tinha apenas dois anos de idade.

Ela sempre acreditou que era seu destino servir ao povo de Mianmar, e chegou a deixar isso bem claro a seu futuro marido inglês, Michael, na véspera de seu casamento.

"Eu queria garantir que ele soubesse desde o início que meu país significava muito para mim e que, se houvesse necessidade de eu voltar a viver em Mianmar, ele nunca deveria tentar ficar entre meu país e eu", diz Suu Kyi.

Depois de um período de trabalho no exterior, ela e Michael se estabeleceram na vida acadêmica de Oxford, criando seus dois filhos pequenos - Alexander, nascido em 1971, e Kim, de 1977 -, até que a mãe de Suu Kyi ficou gravemente doente em Yangon, em 1988.

Quando retornou a Mianmar para cuidar da mãe, Suu Kyi se tornou uma figura importante nos protestos pró-democracia, fundando o partido LND (Liga Nacional pela Democracia).

A junta militar que governa Mianmar aprisionou Suu Kyi em sua casa - e a vida familiar chegou ao fim.

"A ruptura veio quando me colocaram em prisão domiciliar", ela diz.

"Nesse momento, obviamente eu sabia que o meu relacionamento com a família iria mudar consideravelmente, porque nós não poderiamos estar em contato."

Pressão

A junta militar achou que poderia pressionar Suu Kyi a deixar Mianmar explorando esse fato.

"No primeiro Natal depois que fui colocada em prisão domiciliar, permitiram que Michael viesse me ver, mas não deixaram que as crianças viessem junto", diz.

Mas Suu Kyi permaneceu em Mianmar, comprometida com a luta por reforma política - apesar de sua tristeza pessoal.

"Há coisas que você faz com sua família que não faz com outras pessoas. É muito especial. Uma família é muito especial. Então, quando uma família se separa, não é bom, nunca é bom", afirma.

Doze anos se passaram até que ela pudesse ver seu filho mais novo, Kim, novamente.

Quando finalmente permitiram que ele visitasse sua mãe em Mianmar, o amor pela música foi um elo de ligação entre os dois.

"Ele trouxe sua música. Ele tinha todas essas fitas e dizia 'Agora, sabe quem é este, mamãe?'", conta Suu Kyi.

"E eu errava sempre, mas depois comecei a aprender quem era quem. Ele tocava muito Bob Marley, então eu aprendi a gostar de Bob Marley."

Câncer

A pressão sobre Suu Kyi aumentou quando seu marido - que ainda vivia na Grã-Bretanha - foi diagnosticado com um câncer terminal, em 1997.

O regime militar disse que ela poderia partir para ficar com o marido - mas ela acreditava que não a deixariam retornar a Mianmar. Nem Suu Kyi nem seu marido estavam preparados para isso.

"Nunca houve um ponto em que eu pensei em ir. Eu sabia que não iria. E ele sabia também", ela diz.

Michael morreu em 1999.

Dez anos depois, com Mianmar lutando contra problemas econômicos, seus governantes começaram a ver que precisariam de ajuda do Ocidente - mas isso significava introduzir reformas e, por fim, em 2010, suspender a prisão domiciliar de Suu Kyi.

Atualmente, Suu Kyi e muitos membros do LND foram eleitos para o Parlamento liderado pelos generais, mas a democracia completa ainda permanece um prêmio distante.

Apesar do legado de seu sacrifício pessoal permaner, Suu Kyi continua otimista com o futuro.

"Nós sabemos que algo excepcional está acontecento. Nós estamos todos conscientes de que este é um período muito raro para Mianmar. Este é um momento extraordinário para o nosso país." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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