Ilana Panich-Linsman|NYT
Ilana Panich-Linsman|NYT

Tensão acirra debate racial nos EUA

Episódios envolvendo negros e policiais ganham novos contornos após matança de agentes em Dallas; Obama visita hoje local de ataque 

Cláudia Trevisan  CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2016 | 05h00

Brian Williams é um dos cirurgiões que trataram dos 11 policiais atingidos na quinta-feira em Dallas durante uma manifestação do movimento “Black Lives Matter” (A vida dos negros importa). Negro, o médico chorou ontem ao falar das emoções contraditórias que sentiu durante a semana passada: a identificação com afro-americanos mortos por agentes da lei e a empatia com as vítimas de um tiroteio aparentemente motivado por questões raciais. 

“Essa matança, ela tem de parar. Homens negros morrendo e sendo esquecidos e pessoas retaliando contra pessoas que juraram nos defender”, disse Williams durante entrevista coletiva com os médicos que atuaram no tratamento das vítimas do atirador Micah Xavier Johnson, um veterano do Afeganistão. 

Lembrando sua própria experiência de encontros com a polícia, o cirurgião disse “entender a frustração e a desconfiança em relação a agentes da lei”. Mas ele ressaltou que o problema não são os policiais, mas sim “a ausência de uma discussão aberta sobre questões raciais neste país”.

O protesto no qual cinco policiais de Dallas foram executados na quinta-feira era uma reação à morte de dois negros nos dias anteriores, ambos vítimas de tiros disparados por policiais. Na quarta-feira, Philandro Castile foi morto em Minnesota dentro de seu carro. No dia anterior, em Louisiana, um policial atirou em Alton Sterling quando ele estava imobilizado no chão.

“Os dias anteriores de mais homens negros morrendo nas mãos de agentes da polícia me afetaram por motivos que são óbvios, eu pertenço a esse grupo demográfico”, disse o cirurgião. “Há essa dicotomia na qual eu estou ao lado dos agentes da lei, mas eu também pessoalmente sinto a angústia que surge quando você cruza com um agente de uniforme e teme por sua segurança.”

Mas o maior símbolo da complexidade da questão racial e das relações entre agentes da lei e afro-americanos é o chefe do Departamento de Polícia de Dallas, David Brown, um negro que se tornou a figura pública mais proeminente na resposta ao tiroteio. 

No cargo desde 2010, ele promoveu uma reforma que aumentou a transparência e reduziu o uso da violência pelos homens que comanda. “Tudo o que eu sei é que isso tem de acabar – a divisão entre a nossa polícia e nossos cidadãos”, disse em entrevista coletiva poucas horas depois do assassinato de cinco membros de sua equipe. “Nós não sentimos muito apoio na maioria dos dias. Não vamos permitir que hoje se transforme na maioria dos dias”, declarou. 

A relação entre a polícia e a comunidade afro-americana será um dos temas que serão abordados hoje em Dallas por outro negro, o presidente Barack Obama, que participará de cerimônia em homenagem aos policiais mortos ao lado de seu antecessor, George W. Bush.

Ambos estarão lado a lado em encontros com parentes das vítimas, uma rara demonstração de unidade em meio a uma das mais polarizadas campanhas presidenciais da história recente dos EUA.

O republicano Donald Trump usou a sucessão de atos de violência da semana passada para se apresentar como o candidato da “lei e da ordem”. 

Sua adversária, a democrata Hillary Clinton, enfatizou a necessidade de reforma do sistema criminal ao mesmo tempo em que defendeu o respeito aos policiais.

“Cada um deles está falando para sua base de apoio”, disse o analista político Kyle Kondik, do Centro para Política da Universidade de Virgínia, que não acredita em um impacto significativo do ataque de Dallas sobre a disputa presidencial. 

No caso de Trump, a audiência são homens brancos mais velhos que privilegiam a autoridade. Hillary fala ao eleitorado moderado e aos afro-americanos e hispânicos que votam em massa no Partido Democrata.

Hillary e Trump também defenderam a “união” de um país que estaria fraturado. “Não é realista esperar que qualquer dos candidatos consiga ser o presidente da unificação. Obama se elegeu com esse discurso, mas o país continua dividido”, avaliou Kondik.

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