Anatoliy Stepanov/AFP
Anatoliy Stepanov/AFP

Tensão aumenta após Kiev cortar pagamento de gás

Suspensão no fornecimento afetaria UE; risco de conflito cresce após ativistas pró-Moscou tomarem prédios no leste da Ucrânia

12 de abril de 2014 | 20h13

KIEV- O governo de Kiev disse ontem que suspenderá os pagamentos de gás natural à Rússia, aumentando as tensões e o impasse que pode deixar países da União Europeia sem o produto russo, que passa pelo território ucraniano. No leste da Ucrânia, onde grupos de ativistas pró-Rússia ganharam força após a anexação da Crimeia, homens armados tomaram uma delegacia de polícia na cidade de Slaviansk.

Rússia e Ucrânia travam uma intensa guerra de palavras e realizam constantes demonstrações de força depois que protestos em Kiev derrubaram o presidente pró-Kremlim Viktor Yanukovich. Logo depois, os russos enviaram tropas para a Crimeia. Agora, a disputa pelo gás ameaça afetar gravemente outras regiões da Europa.

Grande parte do gás natural que a UE compra da Rússia passa pelo território ucraniano. Portanto, se os russos cortarem o fornecimento à Ucrânia por inadimplência, vários clientes europeus ficariam sem esse gás, crucial para a indústria e para o aquecimento de edifícios.

Andriy Kobolev, chefe executivo da empresa estatal de energia da Ucrânia, a Naftogaz, disse que o alto preço que a Rússia exige pelo produto era injustificável e inaceitável. "Suspendemos o pagamento durante o período de negociação de preços", afirmou Kobolev em entrevista ao jornal Zerkalo Nedely.

A decisão de suspender formalmente os pagamentos mostra que não há sinal de acordo com Moscou, o que pode deixar ambos os países perto de repetirem a antiga a chamada "guerra do gás" – Kiev e Moscou entraram em disputas a respeito de preço e envio por três vezes entre 2005 e 2009, o que afetou o abastecimento para a UE.

Moscou disse que não quer desligar o fornecimento para a Ucrânia se puder evitar e garante que honrará seu compromisso de continuar fornecendo o produto para seus outros clientes europeus.

Ataque. A tensão com a Ucrânia fez a relação da Rússia com o Ocidente chegar ao pior momento desde o fim da Guerra Fria, em 1991. Ontem, em Slaviansk, leste ucraniano, homens armados com pistolas e fuzis tomaram uma delegacia de polícia e a sede do Serviço de Segurança da Ucrânia, conhecido como SBU, a sucessora da KGB soviética, enquanto centenas de moradores reuniram-se ao redor, alguns fazendo barricadas com pneus.

Os milicianos usavam fitas nas cores laranja e preta, um símbolo da vitória soviética na 2ª Guerra, que foi adotado por separatistas pró-Rússia na Ucrânia.

Slaviansk está localizada na região de Donetsk, cerca de 150 quilômetros da fronteira com a Rússia. Grupos pró-Moscou também ocuparam edifícios públicos nas cidades de Donetsk e Luhansk e reivindicam a separação dessas regiões. Delegacias de polícia nas cidades de Krasnyi Lyman e Druzkovka também foram ocupadas.

Autoridades do governo da Ucrânia dizem que as forças russas podem estar se preparando para cruzar a fronteira e entrar no país com o pretexto de defender ativistas pró-Rússia, embora Moscou continue negando que esteja planejando uma intervenção.

Em Donetsk, um grupo de jovens armados com pedaços de pau tomaram ontem um andar do edifício do procurador-geral. Eles saíram do local após negociações, segundo informou a polícia da cidade.

Telefonema. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Deshchytsia, afirmou que o governo ucraniano está pronto para ouvir as exigências dos manifestantes no leste do país, mas que a polícia agirá se as negociações não derem resultado.

"Consideramos que essas ações são inspiradas e preparadas pela Rússia e apoiadas por alguns dos agentes de Moscou na Ucrânia", afirmou o chanceler. Deshchytsia declarou ainda que conversou ontem com seu colega russo, Serguei Lavrov, e pediu que a Rússia acabe com o que chamou de "ações de provocação" por parte de seus "agentes" no leste da Ucrânia. / AP e REUTERS

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