Tensão aumenta no Sudão e ONU retira funcionários de Darfur

O aumento no número de ataques à população civil fez a Organização das Nações Unidas (ONU) retirar com urgência 134 funcionários de El Fasher, a principal cidade de Darfur, no oeste do Sudão. A manobra ocorreu na quarta-feira, após a União Africana (UA) ter afirmado que grupos rebeldes poderiam atacar a cidade dentro de 24 horas. Desde fevereiro de 2003, grupos rebeldes e a milícia árabe Janjaweed, apoiada pelo governo, promovem um conflito étnico que já deixou mais de 2,5 milhões de refugiados e 200 mil mortos, o que é considerado pela ONU o primeiro genocídio do século XXI. A ONU possui acesso restrito a Darfur, auxiliando as tropas da União Africana no processo de paz na região.Apesar da ONU não ter se pronunciado oficialmente sobre o fato, um comunicado interno da entidade, ao qual o Portal Estadão.com.br teve acesso, informa que os funcionários foram retirados de El Fasher devido aos recentes confrontos rebeles. A ONU diz ainda que a milícia Janjaweed teria entrado na cidade na segunda-feira, atirando contra carros das Nações Unidas em um mercado e entrado em choque com o grupo armado SLM, deixando civis e combatentes mortos. Segundo relatos de agências de notícias e de um dos 24 militares brasileiros que trabalha da ONU na capital sudanesa, Cartum, os militantes das Janjaweed invadem povoados não-árabes, queimando aldeias rivais e estuprando mulheres e crianças. Ao contrário do que ocorre no Haiti, os militares brasileiros atuam no Sudão na área de inteligência policial, não em confrontos diretos e no reforço da segurança. De acordo com o informe secreto da ONU, na quarta-feira houve um protesto de estudantes contra a presença das milícias árabes na cidade, no qual o governo usou gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. Os jovens alegam, diz o texto das Nações Unidas, que a manifestação foi uma reação à invasão de Al Mudarig, ao sul de El Fasher, que resultou na morte de um estudante e deixou outros três feridos. Segundo a ONU, após a manifestação, houve um tiroteio no centro de El Fasher, no qual dois veículos do órgão foram apedrejados. Além disso, no mesmo dia, 300 rebeldes protestaram em frente à sede da entidade no campo de refugiados Zam Zam, colocando fogo em dois prédios do campo. Entre 5 e 6 de dezembro, a milícia árabe invadiu ainda o vilarejo de Shagbuba, deixando pelo menos 5 mortos e sete feridos.O militar brasileiro informa que, do total de 134 pessoas deslocadas de El Fasher, 82 trabalham na ONU e o restante é funcionário de ONGs que atuam na região. O Portal Estadão.com.br tentou entrar em contato com funcionários da ONU em Cartum, onde todos estão abrigados, mas eles estão expressamente impedidos de falar sobre o conflito em Darfur.À agência Reuters, Radhia Achouri, porta-voz da ONU no Sudão, disse que a entidade está preocupada com a segurança e que caso haja condições, voltará a atuar na região. "O motivo por detrás da decisão (de retirar os funcionários) é nossa preocupação com a segurança, alimentada pelo crescente número de membros da Janjaweed (milícia) na cidade de El Fasher e pela presença de grupos armados na área." Grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que o governo sudanês usa as Janjaweed, um termo supostamente derivado da expressão árabe para "demônios sobre cavalos", como instrumento de repressão contra a rebelião surgida em Darfur em 2003.O conflito em DarfurO Conselho de Segurança aprovou o envio de tropas em 31 de agosto através da resolução 1706, mas o governo sudanês vem negando a entrada de forças internacionais no país por entender que o fato se caracteriza como perda de soberania. Desde 2005, tropas da União Africana (UA) estão na região, mas, segundo o militar brasileiro ouvido pelo Portal Estadão.com.br, são despreparadas, fracas e inativas, pouco fazendo para impedir os ataques das milícias Janjaweed, que invadem e queimam aldeias rivais, estuprando mulheres e crianças.O militar brasileiro diz que o presidente do país, Omar al Bashir, acredita que o acesso da ONU a Darfur reforçaria uma tendência emancipatória da região, rica em petróleo, já explorado por companhias chinesas e russas. Na semana passada, segundo o site Al Jazeera, Al Bashir aceitou, após meses sob embargo comercial, que a ONU entre em Darfur em uma "força híbrida" de apoio à UA.Em 28 de novembro, o Conselho de Segurança votou uma resolução condenando o governo do Sudão pelo genocídio. O Brasil se absteve de votar.

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